“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

04/02/2007

O gato dentro de mim

Foto de Ada, meu gato Victor Hugo
"Na infância eu era um exímio atirador de flechas. Na casa de campo de meus pais podia exercitar meu hobby com tranqüilidade. Com o tempo, deixei os alvos fixos para me fixar nos alvos móveis. E os alvos móveis prediletos eram os gatos. Os encontrava aos montes, apareciam à noite, à sorrelfa, com miados ora lânguidos, ora metálicos, absolutamente irritantes. 

A agilidade natural daqueles felinos, associada com a fragilidade deles, fascinava-me a ponto de elegê-los como alvos móveis para minhas flechadas. Foi assim que, um dia, acabei por acertar um deles.

O felino era preto retinto. Na luz vaga da noite podia ver seu pêlo eriçado e seu olhar assustado tentando se mover, visivelmente ferido. Naquele momento, toda minha raiva por felinos se esvaiu. Tomou-me conta o desespero ao ver aquele bichinho agonizando ali na minha frente. Removi os resquícios de madeira, incrustados em sua carne e carreguei-o comigo. 

Aquele gato, antes ágil, que por tantas noites enganara todas as armadilhas que eu armava no quintal para capturá-lo, estava ali, diante de mim, sucumbido pelo azar da minha pontaria. Era daqueles gatos que não têm procedência alguma, não se conhece pai nem mãe. Um gato de celeiro, como dizem na França, que ronda a casa à noite para vasculhar restos de alimentos. 

Sabia que aquele ferimento não o deixava com grandes esperanças. Dei-lhe água, leite e comida. Fiz um curativo no local do ferimento e deixei-o abrigado do vento. Na manhã seguinte, quando acordei (quase não dormi), levantei-me cedo para ver o pobre animal alvejado, com um peso de consciência gigantesco. O animal havia ido embora. Sem sequer deixar bilhete de despedida. 

Aquela experiência me marcou por toda vida, mesmo agora, anos depois, com uma vida cheia de histórias de felinos. Não paro de pensar naquele gato preto vira-lata. Haveria ele sobrevivido? Nunca mais o vi por lá desde então. Mas também, pudera, quem seria bobo de voltar àquela casa e cruzar com uma criança mimada com um arco e uma flecha em mãos? 

Os humanos são, de fato, criaturas cruéis e imprevisíveis. Essa fora a minha iniciação com gatos: essas criaturas enigmáticas, cativantes, cujas pupilas se dilatam, fixam-se nos seus olhos, com o nobre intuito de amolecer o coração mais duro. Os gatos, a seu modo, são criaturas mágicas. 

Desde o Egito eles nos rodeiam para que os domestiquemos. Ou seria o contrário? Naquela noite eu fui domesticado por aquele gato preto. E é ele que ilumina o caminho na noite, todas as noites. Você não consegue fugir dele. Porque ele está sempre ali. Você pode escutar aquele ronronar baixinho, como um motor ligado o tempo todo. 

Não se pode se esconder do gato preto porque ele se esconde com você. 

O gato está dentro de mim."

M. Dupont White. 

Vive em Paris com seus gatos.

O gato da foto é o meu Victor Hugo

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