“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

10/03/2008

Um dia triste

Hoje foi meu primeiro dia de academia. Havia decidido que 2008 seria o ano de cuidar do corpo e da mente. Um ano sem malhar é desastroso! Engordei, enferrujei, arranjei torcicolos e tendinites. E, claro, a cabeça fica caçando sarna para se coçar. Caminho da academia é à pé pelas calçadas quebradas e sujas do bairro, sol escaldante às oito e meia da manhã, registros de 31ºC, animada com a decisão de liberar a serotonina. Há dois quarteirões caminhados - parece que é uma sina - os pedreiros de uma obra levantam bem na minha frente, um encerado que cobria montanha de lixo e entulho na calçada. Eis que a visão do cão malhado em preto e branco, inerte, misturado ao lixo, bate como um flash em minha retina. Não consigo esquecer a imagem da morte e a expressão de sofrimento desse cão. Pela boca escorreu um líquido. Ele não parecia machucado. E fico pensando nas causas de sua morte. Há uma semana eu o vi correndo entre os carros no farol dessa avenida do bairro. Sujo, assustado, carregava no pescoço um cinto verde oliva parecido com o cinto que os recrutas de exército usam.. Parecia que nunca andara na rua, tonto, sem experiência, via-se que estava perdido. Essas cenas me deixam arrasadas. Humanos são logo socorridos, mas animais são chutados e escorraçados. Nesses dias de seca, nem água encontram nas sarjetas. Meu coração se aperta de um jeito, que parece vou sufocar. Meu coração dispara. Meus olhos se molham de sal e pimenta. Mas o diabinho que fala no meu ouvido esquerdo me diz: esquece! Você não pode resolver os problemas do mundo... e sigo a vida. Cheguei na academia aos prantos. Se aquiete coração! Se ele morreu, agora acabou-se o sofrimento! Mas o quanto ele sofreu antes disso? Qual sua história, pobre animal? Triste fim de uma vida num caminhão de lixo? Me sinto tão impotente diante das coisas do mundo! Até parece que não amadureci e não consigo compreender as desumanidades? Não consigo. Não amadureci. Minha rebeldia em não aceitar as coisas erradas do mundo, insiste em me cutucar em cada esquina que passo. Agora, no fim do dia, entardecer encalorado dentro dessa sala, no centro financeiro da cidade, quero crer que um dia, quando avançarmos nas igualdades sociais, quando as pessoas ficarem mais sábias de seus direitos e menos ignorantes de seus deveres, não abandonarão seus animaizinhos e filhos, eles não nascerão por acaso, e serão amados e alimentados, a dor e a solidão do mundo deixarão de existir. E pessoas não viverão do lixo onde, além do sustento, encontram cãezinhos e crianças mortas de fome, sede e abandono. (Ada 10/3/2008)

Um comentário:

andre luis aquino disse...

Compartilho do seu desejo e da nossa ignorancia diante do outro.O individualismo nos tornou assim secos,pessoas que não sabem olhar para além de si e imaginar o sofrimento de outrem.Um beijo....