“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

05/04/2009

Desenhando o Mundo

Gostava de desenhar, como toda criança gosta. Me lembro de uma certa paisagem que me esmerava em aprimorar. Essas paisagens iam parar no mural da escola entre os melhores desenhos da semana. E iam todas as semanas. Iam sempre. Orgulhosa, caprichava nas perspectivas, nas sombras das montanhas que sempre escondiam um sol que era sempre amarelo, mesmo sem a noção se ele nascia ou morria alí, com seus raios em riste, às vezes ondulados, que imensamente cortavam o céu sempre azul, furando algumas nuvens gordas esbranquiçadas. Sempre plantava uma árvore ao pé da serra. Às vezes eram bananeiras, outras, coqueiros. Pesquisava antes, o formato das folhas, para não fazer feio. Macieiras tinham de ser carregadas de frutos. Não sei dizer se eram urubus ou gaivotas, mas bandos desses pássaros desenhados em V cortavam o céu, os da frente eram grandes e os detrás menores e diminuindo em fileira, davam a perspectiva de que iam ou vinham fugidos do inverno... às vezes adicionava novos elementos, um lago ou um rio que vinha das montanhas, alguns patinhos... e eu sempre andava por alí, como se diminuísse de tamanho até caber na cena. Vivia literalmente na paisagem enquanto a desenhava. Não sei se vi de fato essa paisagem, talvez num livro, numa revista, ou sabe-se lá se de verdade, já que nasci telúrica, mas ela foi reinventada por mim naqueles tempos de primário, acho que no segundo ano, no colégio de freiras do qual não gostava nem um pouco. Uma coleguinha almejava esse feito. Quem sabe, ainda hoje, aquela que foi minha coleguinha, não saiba desenhar... onde estará? Mas então, em solidariedade e no afã de que ela pudesse ter o seu dia de mural, assinei seu nome num desenho meu e o presenteei. Ele foi para o mural, como supúnhamos. Ficamos as duas muito orgulhosas, ela com o sucesso e eu com a sensação de ter feito um bem. Nem sequer pensamos que alguém notaria a fraude e, claro, não pudemos esconder a verdade por muito tempo - creio que por nenhum - visto que o desenho era muito peculiar e nós, muito inocentes. Uma noviça, quem sabe encarregada de apregoar as bondades de deus pelo colégio, me abordou no recreio, no dia seguinte. Me falou sobre as divindades, trindades, bondades, os dez mandamentos de Jesus mas, até hoje não sei dizer se me criticava por ter mentido, ou se me elogiava por ter feito uma colega feliz. Uma perfeita incógnita, mas sei que era um recado e que não me convenceu. Acho que foi daí que soube que a religião não explica nada sobre as coisas do mundo. (Ada 5/4/2009)

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