“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

02/05/2009

Essazinha, a tristeza

(foto Matilde Vieira, em olhares.com)


Só esses bem-te-vis aos meus ouvidos, à seis da tarde, conseguem amenizar a ira da minha tristeza. Ela, essa tal tristeza, é minha conhecida há tempos, nem sei quanto, acho que já tinha nascido comigo, intrínseca à minha existência, quem sabe até a conhecia antes de mim. Ou então, é uma semente imortal que me deixa grávida dela, por diversas vezes, quando resolve se fecundar.

O problema é quando penso que ela adormeceu eternamente, ou então que está inócua, e esqueço suas maldades. Mas quando acorda fecunda, costuma ser implacável. Fico inutilizada, sem armas para travar um combate de igual para igual. Houve um tempo em que eu até achava que a dominaria. Ter a certeza de que tudo vai melhorar com seu trabalho de formiguinha, constante e crendo transformações e revoluções, me fortalece nesta batalha. Mas nem sempre essa aliada, a certeza, se predispõe a me ajudar. Ela costuma falhar nos momentos em que você mais precisa dela.

Do outro lado, a tristeza gera dúvidas, tem aliados fortíssimos e imbatíveis. Esses aliados desfilam diante de seus olhos constantemente, ainda mais se os olhos são atentos e enxergam, não há como fingir não ve-los. Eu bem que tento, mas a talzinha da tristeza me joga na cara o quanto sou frágil. Me insulta com pobreza, abandono, destruição, fome, crueldade, injustiça, escravidão e guerras. E quer insulto maior do que a guerra?

A tristeza é opressora. Ela me provoca tal rebuliço que parece tenho um pássaro preso e esvoaçando dentro do peito. Ela me faz pensar que sou mais avançada que meu próprio tempo mas ri do meu azar que nasci em tempos ruins.

A tristeza é ignorante. Elazinha provoca uma inquietude tal que me deixa com enjôos das pessoas que perambulam ignorantes pela Terra. Me deixa com enjôos de mim, me deixa assim vulnerável. Resolvo que gosto menos dessa gente do que de todo o resto que existe na vida, menos que as flores e os cães.

Para me livrar dela, tenho que me entregar ao nada, fechar os olhos e desaparecer de mim. Preciso urgente não estar, não ser, não ver e não sentir e todos os infinitivos evocar. Ficar mouca aos sentidos, me dar por perdida. Preciso adormecer, fingir-me invisível, até que essazinha se definhe, sem alimento e, por fim, adormeça comigo e fique por lá, não sei onde, nos pesadelos, mesmo que não seja de uma vez por todas.


Postado em 21/08/08 por Ada às 6:27 PM
Comentários feitos que foram perdidos e recuperados:
Francisco Castro disse: Olá, gostei muito do seu blog. Parabéns! Um abraço
21/8/08
*POPMüller* disse: A música... Adoniram! Maravilhosa e oportuna escolha com casamento perfeito com o texto. Doi n'alma!!!!!!!!!! Bjs.
23/8/08






Um comentário:

comentalidades disse...

Obrigada pela visita, Ada, penso que essa é uma espécie de melancolia que afeta os criativos, falo sobre isso no post O Ser Criativo e a Melancolia, http://comentalidades.blogspot.com/2009/07/o-ser-criativo-e-melancolia.html
Também gostei bastante do que vi aqui. Peço licença para seguir o seu blog e convido-a a seguir o Comentalidades.