“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

02/05/2009

Uma caneca de medir tudo


A caneca amarela que usei hoje pela manhã para regar as plantas da janela da cozinha, por incrível que possa parecer convive comigo há 32 anos. Constatei isso num relance, ao perceber que ela está começando a se rachar e o medidor de litro está quase desaparecendo de tão gasto. 

Naquele momento pensei em comprar outra e, em seguida, no quanto ela me foi útil e necessária nesses anos todos. Foi mais que isso, ela me acompanhou pela vida! É fantástico como os pensamentos viajam pelo tempo em pequenas frações de segundos. Uma simples caneca de plástico amarelo me remeteu de volta ao ano de 1977. 

Ela foi comprada pelo meu marido, e pelo Zé Luiz, nosso amigo, para medir líquido de revelação fotográfica, no tempo em que eles faziam fotos de tudo. Ainda tenho algumas fotos em preto e branco feitas por eles naqueles dias jovens e rebeldes. Minha filha estava em gestação na minha barriga e ao lembrar, agora olhando essa caneca, assim como se olha um filme, seria capaz de sentir os enjôos que tive e que as grávidas sentem. 

Um dia, lá naqueles tempos, usei a tal canequinha para medir o leite em pó que tomaríamos no café da manhã e o Zé Luiz profetizou que o bebê - ainda não podia saber que seria a Mayra - nasceria com cara de "nerd" ou qualquer coisa que não me lembro, mas que era engraçado...

De lá para cá, essa caneca me acompanhou em várias jornadas de trabalho, na cozinha medindo farinha, enxaguando janelas e azulejos, no jardim regando plantas, no banho dos gatos, mediu tanto açúcar, para tantos bolos, feitos nesses anos todos. Isso tudo, depois de medir os tais químicos de revelação, que assim foi se revelando uma caneca versátil. É impossível calcular quanta coisa ela mediu. 

Mudou de casa e de armário, me acompanhou sem que eu me desse conta, a não ser hoje pela manhã, em que foi capaz de me surpreender de como foi fiel todos esses anos de minha vida. Não creio que um outro objeto tenha sobrevivido comigo tanto assim. Ela está se quebrando, gasta, desbotada, cansada, um prenúncio de que em breve chegará ao seu fim. Não mais terá essa função de medir tudo para mim. Ou terá? 

Quem sabe chegou a hora de poupá-la das suas tarefas costumeiras e preservá-la como uma estimada caneca de medir, daqui para frente, somente as boas recordações.



Postado em 25/10/2008 por Ada às 8:20PM


Cometários feitos e recuperados do blog perdido:


Arqstein disse... Que interessante esse teu relato. Enquanto lia, ia lembrando de objetos que me acompanham e que reluto em me desfazer. Ainda hoje, ao olhar a canequinha de canetas, pensei em limpar. Mas dentro dela tem a primeira caneta de nanquim que usei na faculdade. Entupida, não serve mais, mas tem um valor sentimental que vale mais que a sua utilidade... Gostei de ler. Beijos Ele nara 25/10/08

Ada disse... Elenara querida. Obrigada por comentar os meus alfarrábios. Acabei colocando uma foto da minha caneca amarela no post que você gostou. Me lembrei dos utensílios de barro encontrados por arquélogos e considerando que o plástico vai levar uns 500 anos para se decompor, minha canequinha poderia passar por mais 6 gerações à frente! Só não quero colaborar com o oceano de plástico! Beijos 26/10/08

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