“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

10/12/2009

Cicatrizes da vida

Mano, olhando para o dedão do meu pé direito, assim torto, me lembro do chute que tentei te dar, mas que acertou em cheio a parede. Doeu tanto o deslocamento, que entrei em desespero, e enquanto meus braços zanzavam desgovernados diante de seu rosto, ensaiando bofetões que nunca te alcançavam, você aproveitou uma distração minha e fugiu, deixando-me a chorar. Você já era provocador desde pequeno, e como eu sempre levava a pior por ser mais velha, não contei prá mãe e aguentei sozinha a dor, por dias... até que sarou, deixando uma marca registrada em mim. Tinha 14 e você 10. De vez em quando a gente brigava e nem lembro os motivos, coisas da convivência entre irmãos, ainda mais de gêneros e gênios diferentes. 


Mano, agora você olha bem para o seu pé esquerdo: confere se há uma cicatriz, mesmo que sutil, sobre o peito do seu pé. Esta cicatriz é de um corte causado pela travessa pirex da macarronada de domingo. Neste dia, consegui fazer com que você enxugasse a louça do almoço, tarefa que era exclusivamente minha por ser mulher, mas você deixou-a cair, abrindo seu pé e quase parecia estar em dois pedaços. Seus berros de dor me entregaram à mãe. Lá vou eu levar bronca! Acho que é desta época que nasceu em mim o desejo de igualdade entre os gêneros. Nunca me conformei em ter de fazer as tarefas domésticas, enquanto você ia para a rua brincar. "Homem não tem que lavar louça! Você é a culpada dele ter se machucado!" e saiu atarantada a te socorrer, enquanto eu ficava boquiaberta.


E assim carregamos os dois as cicatrizes das nossas vidas. Crescemos e paramos de brigar, mas, quantas outras vieram nesses anos todos? Cicatrizes visíveis e invisíveis que a vida foi nos deixando?  (Ada 10/12/09)

2 comentários:

Fausto disse...

aiiii !!!! deve ter doido pakas, mas enfim, isso serviu pra alguma coisa benéfica, hoje eu curto mais lavar as louças e bem menos desastrado, não quebro mais nada embora a tese de que o homem não faz nada é pura heresia, chega a ser uma blasfêmia conta a nosa raça masculina, hehehehehehehe

Fausto

António Jesus Batalha disse...

Quebrar um copo de vez enquanto não faz mal, melhor que quebrar dedo do pé, uma lição, irmãos não é para andar à luta.
Estou a brincar.
Desejo um bom fim de semana, e um Feliz Natal e que o Ano Novo seja cheio de alegrias e melhoras para o pé.
António.