“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

18/12/2009

(parêntesis)

Fim do dia, faltam apenas duas horas para acabar e o metro carrega uma dúzia de pessoas. Na Liberdade, entra uma japonesa idosa, felicíssima em levar um maço intrigantemente verde de cebolinhas frescas e eretas. Senti o sabor do "missoshiro" que ela fará daqui a pouco [é o caldinho que leva cebolinhas em rodelas] coisa de orientais. 


Senta-se no banco azul que é destinado a ela, e indignada pede ao moleque do lado para tirar os pés do assento. Essa mania da molecada de apoiar os pés rende bancos sujos e descascados, assim como repreensões do condutor do trem, que pelo alto falante insiste em propagandear maior civilidade entre uma e outra estação. O moleque desata a rir e o homem que o acompanha balbucia qualquer palavra ignorante, instigando-o a, deliberadamente, recolocar os pés no banco. 


Ela, indignada, entoa mais energicamente e decidida: "por favor, tire os pés do banco!" O moleque os tira, gargalhando um desrespeito acintoso, enquanto o homem acrescenta: "a senhora é mal resolvida". "Qual o quê, o senhor deve ser muito bem resolvido! a despeito de sua aparência e desacato! o senhor é um rei muito bem resolvido" e trocam outras destempéries que não consigo ouvir entre os trancos dos trilhos febris. 


Ela desce cinco minutos depois com seu maço de cebolinhas prestes a murchar por tanta má educação e atrevimento. O moleque, rindo feito iena [que me perdoe a iena] solenemente sobre os seus míseros 15 anos e sob um boné "I love NY" volta impunemente a colocar os pés no banco, orgulhoso do professor especialista em machismo e bons modos. 


Fiquei acrescentando minha indignação à dela, nesse parêntesis que é viver em Sampa.

Um comentário:

Anônimo disse...

Educação, Berço, Gênio, Personalidade, Familia, Mimo.... vai se saber qual delas ou se todas juntas ou sua falta ou o excesso ou até uma forma errada de ministra-las, enfim... é essa a vida que esta em nossas vidas no dia a dia...

Fausto