“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

09/12/2009

Poema de Marta Eugênia: Figueira seca

O jornal denuncia as imagens
de um mundo cheio de ofensas.
A vida tosse, tosse dando avisos de si.
Eu busco mesmo o gozo de um gesto novo,
de uma inédita aparição!
Mas Deus põe minhas mãos tão mudas...
Nenhum verso, nenhum outono em palavras.
O cesto é sem frutas e sujo do nada.
E eu que já realizei infâncias fascinantes
nos caramujos, nas formigas
nos pequenos voadores, nos atalhos pro riacho,
não consigo cometer um verso.
Não fiz trato com ninguém
e o silêncio da rua umedecida
também repousa em meus dedos.


Quem decide o tamanho das coisas?


A varanda me decide um pensamento
que não serve pra ninguém.
E a página do meu dia querendo estar limpa
como as árvores do fim da rua
se encontrando com a garoa.
Mas despejo o meu olhar inteiro sobre a rua
e colho quieta o semáforo em vermelho.


Marta Eugênia é Professora de Língua Portuguesa, especialista em linguística na cidade de Arapiraca - AL. Escreve há algum tempo e tem alguns poemas espalhados pela cidade, como por exemplo no "Memorial da Mulher".

Um comentário:

Luiza disse...

Marta Eugenia de tão simples chega a ser complexa, ser mutável, paradoxal... repleta de encantos. É o orgulho da minha cidade e um ouro do meu estado das Alagoas.