“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

26/08/2010

A velha Gata Malhada, T.S.Eliot

Minha gata malhada Cindi: foto Renato Silvestre
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A velha gata malhada
T.S.Eliot
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Suponho uma gata malhada, chama-se Ágata Sardenta
Listras de tigre e pintas de leopardo a sua pele ostenta
Deita-se o dia inteiro no capacho ou nos degraus da escada;
E por ali todo tempo jaz deitada – mas isto é o que faz uma Gata Malhada!

Mas quando, à noitinha, cessa toda a correria
É que o duro trabalho da gata principia.
E quando toda família cai no sono e se deita,
Ela desce no porão, levanta as saias e espreita.
Interessam-lhe a fundo as maneiras do rato
Sua péssima conduta e sua falta de tato.
Assim, quando o enquadra sob o capacho escondido,
Ensina-lhe sua música, seu crochê e seu cerzido.


Suponho que uma gata Malhada, chama-se Ágata Sardenta;
Outra igual a custo acharia, adora o calor e sob o sol se esquenta.
Deita-se o dia inteiro ao pé do fogo, do forno ou sobre uma almofada;
E ali por todo o tempo jaz deitada – mais isto é o que faz uma Gata Malhada!


Mas quando à noitinha, toda a azáfama cessa
É que a árdua tarefa da gata recomeça.
Ao perceber que aquele rato não se aquieta,
Conclui que isto se deve a uma equívoca dieta.
E por crer que na vida nada vem de graça,
Corre logo para o forno e a frigideira. E assa
Um bolo de rato, enquanto bem devagarinho
Frita uma bele omelete de queijo e de toicinho.


Suponho que uma gata Malhada, chama-se Ágata Sardenta;
Apraz-lhe dar nós nas cordas da cortina ao pé da qual se senta.
Deita-se à beira da janela, ou em qualquer coisa acolchoada:
E ali por todo tempo jaz deitada - mas isto é o que faz uma Gata Malhada!

Mas quando, à noitinha, chega ao fim o bulício
É que a gata, outra vez, retorna ao seu ofício.
Ela crê que às baratas cabe alguma ocupação:
Nada de ócio ou de luxúria no ermo do porão.
E assim fez dessa tola malta de arruaceiros
Uma bem disciplinada tropa de escoteiros,
Com um alvo na vida e a missão de colher louros,
Tendo mesmo formado uma Banda de Besouros.

Cabe assim darmos agora tres vivas à Malhada,
Pois sem ela, ao que parece, não há casa arrumada.

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Extraído do "Livro do velho Gambá sobre gatos travessos".
T.S.Eliot, Obra Completa, vol 1, Poesia.
Tradução de Ivan Junqueira
The Old Gumbie Cat é o 2° poema, ao todo são 15, e também a 2ª cena do Musical Cats.

Leia o primeiro aqui.



Detalhes:
Na tradução, Ivan Junqueira adaptou alguns nomes de gato para dar a rima proposta por Eliot. Olhando o original, vemos algumas interpretações do tradutor.

Estes poemas do "Livro do Velho Gambá sobre gatos travessos", foram adaptados para o musical Cats.

E o mais importante: ganhei as obras de T.S.Eliot, do meu queridíssimo amigo Renato Silvestre. Um fotógrafo de primeira, além de gateiro.
Confira mais sobre o poeta e escritor T.S.Eliot e veja fotos dele, aqui.


Vídeo desta cena no Musical Cats

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