“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

14/09/2010

Costumava trazer o mundo de fora para dentro do quarto

Minha infância foi peculiar. Era imaginativa e vivia perdida em meus próprios pensamentos. Não me concentrava nas coisas que os outros viviam. Não prestava atenção na aula e meus lápis eram bonecos que tinham vida dentro do estojo e falavam entre si andando entre a borracha e o apontador de lápis. Falava sozinha, brincava sozinha. Tinha amigos, mas preferia brincar com as bonecas. Mais tarde, ficava horas a fio escrevendo. Minha escrivaninha de fórmica branca, debaixo da janela do quarto, era o meu mundo. Desenhava, pintava e escrevia. O tempo parava em devaneios e sonhos. Certa vez fiz um grafitti na parede do meu quarto, do teto ao chão. Desenhei uma cidade cheia de prédios, e janelas e portas em perspectiva, antenas e ruídos... Costumava trazer o mundo de fora, para dentro do quarto. Para o papel, para a tinta. Era assim que preferia vê-lo.
Ilustração de Carol Burgo
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