“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

02/10/2010

Carta de Jenny Scavinsky: vou falar de coisa que eu gosto, festa!

Oi amiga Eliana, teu nome é muito bonito, não é como o meu que sempre me chamam de Geni. Acho horrível e sempre tenho que explicar que meu nome é Djenny (a pronúncia certa). Então, quando meu pai chegou ao cartório estava de pileque, comemorando a minha vinda, então mamãe disse a ele que o meu nome seria Joanna, a santa do dia e a pronúncia em polonês era Yannya então, o atendente não entendendo, disse a ele que havia um nome parecido e que era Jenny e assim ficou. Quando ele chegou em casa recebeu uma baita reprimenda, coitado, meu pai não falava e nem entendia bem o português...

Quanto à minha mãe era uma criatura formidável, quando chegou da Europa sua vinda e sua vida foi uma tragédia. Não foi nada como disseram os cartazes que prometiam o paraíso aqui no Brasil, que tinha ouro fácil na rua. O que ela encontrou foi um pequeno inferno na figura do dono da fazenda que tinha plantação de café, e não lembro mais o que. Pois bem, deram-lhes uma casa sem fogão, sem camas, sem mesas, nada. Apenas o chão de terra batida, e eles sem falar o português receberam das mãos de um negro, morador da fazenda, uma bacia cheia de limas, laranjas, e nem um pedaço de pão e sal.

Quando durante a primeira guerra eles fugiram para a Rússia, bendita Rússia - às vezes eu penso que tenho alma russa, por causa de suas músicas e vida-, então eles foram recebidos por uma turma de moradores e logo foram aparecendo mesa, cama para o casal e camas para as crianças, - no caso minhas irmãs -, pão, sal, queijo, chá, panelas, macarrão, etc. Assim eram os russos, muito hospitaleiros!

Eliana, você já leu Gorki? Eu amo Gorki.

Pois é assim que minha mãe e meu pai estenderam peles no chão e as crianças puderam dormir. No dia seguinte, minha mãe começou a prestar atenção no modo dos colonos falarem e assim, como ela era muito inteligente, foi aprendendo. Junto com eles chegou um casal de imigrantes e de plantio eles não entendiam nada. Ela era pianista e o marido professor. Ficaram desesperados, pois a promessa que fizeram (o governo brasileiro) era de um pedaço de terra, e ficou na promessa. Os imigrantes que foram para o sul do Brasil tiveram sorte...

Então o casal sofreu um trauma que resultou no suicídio do professor e quem foi relatar o que aconteceu foi a minha mãe. Foi de caminhão para Ribeirão Preto e lá foi conversar com o encarregado do cônsul da lituânia no Brasil, expondo em parco português, nesse tempo ela já se fazia entender, disse da vida que levavam na fazenda do Dr. Schmidt. Então o dito encarregado disse que não comprasse mais nada na vendinha da fazenda e que se preparasse para vir para Ribeirão. E foi o que ela fez. Ai começou a vida dura e sem futuro. Foi trabalhar na casa de famílias como costureira, foi o que ela aprendeu na sua terra de origem, aprendeu o corte francês. Não vou continuar a história porque é muito longa e dolorosa para mim. Minha mãe muito orgulhosa teve de engolir.

Muitos anos depois eu já estava morando e trabalhando em São Paulo, soube que o tal Dr. Schmidt teve uma filha albina e quando ela completou 18 anos, nadando na piscina do tênis clube de Ribeirão ela morreu presa na tubulação onde saía a água... E será que foi um castigo?

Estou ouvindo o CD da Cássia Eler, se você quer ouvir coisa gostosa eu lhe faço uma cópia. Diga-me.

Sim, noutra noite assisti um programa que traziam fatos ocorridos em Pensilvânia, Estados Unidos, eram assistência a Bichos abandonados, casos incríveis, e então eu penso porque não existe aqui no Brasil policia equipada para atendimento aos nossos bichinhos tão carentes e abandonados? Mas é querer muito, nem nossos humanos têm atendimento para suas mazelas... Esse serviço de atendimento aos bichos tem no Canadá também.

Agora vou falar de coisa que eu gosto: festas. Principalmente a do nosso Vermelho que no fim do ano fez aquela alegria, e eu me diverti muito, tomara que se repita.

Beijos, Jenny.
(2/10/2010)

3 comentários:

Anônimo disse...

Prima li todas as cartas da Jenny com interesse, emoção, alegria... ela escreve sobre coisas do cotidiano de maneira simples e objetiva.Venho tentando fazer isso...tenho alguns escritos...foi um bom exemplo de como se faz! Parabéns á ela pela história de vida, pela idade e dificuldades físicas que não atrapalha a clareza do pensamento, da memória e da forma como dá vida á passagens de sua vida.Parabés á sua amiga Jenny.

Ada disse...

Quem é Jenny Scavinsky?
Ela tem um filho que trabalha comigo. Ela é uma pessoa especialissima. Tem 81 anos.
Ficamos amigas. Mora no interior e nos vemos muito pouco pessoalmente.
Das piucas vezes que nos vimos, tivemos uma grande afinidade e simpatia. Ganhei uma plantinha hidropônica dela que tem lugar especial na minha casa e se desenvolve cheia de viço.
Ela me escreve estas mensagens lindas. Estou publicando-as, uma a uma aqui.
Ela digita, estuda, se atualiza... sabe falar sobre todos os assuntos.
Está quase sem visão em 1 olho deviso a sequelas da cirurgia de cataratas. E agora adquiriu trombose. Esta parte é triste.
Eu gosto muito da Jenny.
Ela quer escrever um livro.
Quem sabe estas postagens já sejam alguns capitulos...
Beijos à Jenny.
Se quiser postar comentarios no blog, serão bem vindos!

Anônimo disse...

Li todas as cartas que vc postou, ela é realmente especial e, sinta-se especial também por estar recebendo essa correspondência, são coisas raras que acontecem, ter um depoimento em loco e tão emocionante, vivo, expressivo e porque não dizer literário. Ela tem estilo e sabe pegar o emocional. Pode enviar mais, estou adorando ler. bjs. Elenice