“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

02/10/2010

Carta de Jenny Scavinsky: a gata Chana e o Sofreu

"Olha eu aqui de novo! Nem preciso lhe dizer que vivo esquecendo as coisas. Queria lhe falar sobre a Dilma, o quanto eu a admiro, não por ela descender de búlgaros, mas sim por ela ser esta pessoa forte e determinada como ela só.

Mudando de assunto, fiquei babando pelos docinhos  [gatinhos] e o quanto eu sinto em não ficar com um deles. Pois quem tem pincher não pode mais ter outro animal, o pincher é muito exclusivista, quer ser o dono do pedaço. E um docinho ia ser a minha glória, pois o gato vem em segundo, o cavalo em primeiro, e o cachorro em terceiro, devido às circunstancia da minha vida, talvez por ter vivido em sítio tive que optar por cachorro.

O Humberto velho não queria gato no sitio, porque queria poupar a sanha do gato por pássaros, o que lá tinha em abundância, mas ele também esqueceu de que na minha vida eu sempre misturei gato com pássaros. Eu tive uma gata cinzenta chamada Chana que teve filhotes negros e um deles dormia em cima da geladeira ao lado de um pássaro Sofreu, ou Concriz, (1) e este assobiava músicas do Roberto Carlos, aquela: “Tanto tempo longe de você...”  e também o inicio do hino nacional.  Ê tempo bom, eu era feliz e não sabia!  

Essa gata, a Chana, era incrível. Uma noite eu estava deitada numa rede na sala de jantar e a casa não era forrada, então nas vigas de madeira víamos ratos andado. Eu vi um, chamei o Humberto ele veio com a espigarda de chumbinho, pegou margarina, ou manteiga, não me lembro bem o que era e passou um bocado na viga de madeira e em seguida se afastou e eu fiquei bem quieta na rede. Instantes depois aparece o rato e foi lamber a manteiga. Humberto deu-lhe um tiro certeiro e a gata pegou o ratinho e levou-o para o quintal.

Outra noite, Humberto estava no escritório e a gata chegou com o rabo bem em pé e fazendo ruídos baixos. Foi para perto da porta aonde Humberto guardava a espingarda e correu para a sala de jantar aonde foi visto o primeiro rato andando na viga. E ai estava o segundo rato... foi morto do mesmo jeito do anterior. E assim foi que Humberto exterminou os ratos da nossa casa.

Essa gata teve filhotes lindos. O primeiro foi o Xirico e Humberto adorava esse gato, andava no seu ombro ronronando no seu ouvido. Morreu por causa de uma epizootia (2) no começo das chuvas. Disse Dr. Mozart, pai do Humberto, que como não contamos que o gato estava vomitando e triste, não soubemos como tratá-lo.

Já no segundo filhote que era o Fininho, foi mais fácil, Humberto aplicou-lhe um antibiótico e Plasil e o gato foi salvo.

Um abraço e obrigada por me "ouvir".

Beijos, Jenny."
(30/9/2010)


Minhas notas

(1) Pássaro Concriz, também conhecido como Sofreu ou Corrupião, é habitante da caatinga e de zonas mais áridas. Possui um canto melódico e muito agradável. Essas aves se alimentam de insetos, frutos e sementes e também gostam de seiva de árvores mandacaru. As fêmeas dessa espécie botam três ovos durante a vida e gastam duas semanas para chocá-los. O Concriz rouba ninho de outras aves, seja ninhos vazios ou até mesmo habitados, retirando seus donos anteriores.



(2) Epizootia (do grego clássico: epi, por sobre + zoon, animal) é o conceito utilizado em veterinária e ecologia das populações para qualificar uma enfermidade contagiosa que ataca um número inusitado de animais ao mesmo tempo e na mesma região e que se propaga com rapidez.

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