“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

28/03/2011

Carta de Jenny: Meus pais me criaram sem medo


weapons sleep born Angels by lucido5

Oi Felipe, bom dia! Feliz sábado. Hoje é dia de balada, você frequenta? Eu gostava muito de dançar, há três anos frequentei o Recreativo, aqui em Atibaia. Quando estava no nordeste íamos para o Pernambuco dançar aos sábados na fazenda de Gualter, irmão mais novo do meu ex-marido. Só que agora estou com distúrbio de equilíbrio e não posso andar sozinha. É assim mesmo, já passou o meu tempo de pé de valsa.


Pois, vamos agora para o terceiro capítulo da minha história. Ainda bebê, minha mãe me levava junto para as casas das suas freguesas. Algumas vezes ficava em berço, quando havia crianças nas casas, e quando não, ficava num caixotinho de madeira onde eu não podia sair. Quando íamos para a casa de dona Cora, professora de culinária da escola normal de Ribeirão Preto, pela manhã bem cedo ela já tinha preparado o leite com açúcar para fazer doce de leite, às vezes se esqueciam do leite para minha mamadeira e colocavam o leite adoçado, acho que foi por causa disso que sempre gostei de doces. Dona Cora tinha filhas e uma delas tinha o nome da lua em indigena, parece também que era Cora, então quando ela se casou com um delegado que servia na capital (São Paulo) ela passou a assinar Cora Pisa Cobra. Pisa Cobra era o sobrenome desse delegado. 

Depois, eu fui crescendo e mamãe teve de me deixar com minha irmã mais velha chamada Sabina. Ela gostava muito de sair de casa e me deixar sozinha. Um dia, nossa vizinha dona Cândida que era viúva e tinha um filho e um neto, me acolheu. Minha mãe chegou do serviço e me encontrou na casa da vizinha porque Sabina tinha saído e me deixado numa bacia enorme de alumínio, com alguns panos, bananas descascadas - devia ser para eu não passar fome. Quando dona Cândida, ouvindo meu choro, correu até o quintal de casa e lá me encontrou toda cheia de merda, toda suja de xixi também, ela se condoeu e me levou para casa onde de deu um morno banho, leite e me pôs para dormir. Sempre na minha vida fui grata a ela até o fim de sua vida. Dona Cândida era portuguesa, descendente também de árabes, antigamente os árabes se casavam com portuguesas. Então quando ela chegou ao Brasil, foi viver em Minas Gerais, ela era morena esverdeada, cabelos negros e grossos, usava trança, fazia comida deliciosa. Papai costumava trocar um prato de comida que ele fazia por um prato da comida dela, e por minha causa, pois eu não gostava de comida estrangeira.

Bem, quando mamãe chegou, e sabendo do ocorrido, resolveu ficar em casa. Nesse meio tempo meu pai foi piorando a saúde, ficou com arteriosclerose, diabetes, e também sofria de varizes nas pernas, começou um martírio para ele, pressão alta, e o médico mandou suspender o sal, o açúcar e outras coisas. Me lembro do rosto dele sempre triste, de dois em dois meses ia para Rincão, e depois para Itirapina, onde minha irmã vivia com o marido Francisco (ele aquela época era tchecoslovaco), começou a se tratar com o médico da minha irmã, esse médico era da Cia. Paulista de Estrada de Ferro, onde meu cunhado era funcionário, cuidava do café que era exportado para a Europa, a função dele era Pette. Conferente de Café, bonito não?

E lá ia de dois em dois meses para fazer exames, até que em 1949 ele teve uremia, por vergonha não contou à filha, nem ao genro, quando o quarto em que ele dormia começou a feder urina, chamaram o médico esse chegando aplicou um soro, e disse ser tarde demais. Faleceu esperando a família chegar, infelizmente o trem da Paulista atrasou por causa da visita do interventor do Estado de São Paulo para uma visita política em Ribeirão, e então o trem atrasou e minha família ao chegar, meu pai já havia falecido. É por isso que eu tenho muito medo de doença nos rins.

Dois dias antes do falecimento do meu pai, mamãe recebeu um telegrama, avisando que ele estava nas últimas. Não disse nada. Me deixou às 9 horas da manhã para pegar o trem e eu fiquei sozinha com meu cachorro Lord e meus dois gatos. Dormi à noite sem medo, era muito corajosa, meus pais me criaram sem medo. Eu fui sonâmbula, quando papai se levantava para ir ao banheiro de madrugada, eu ia junto com os braços estendidos, mamãe dizia “não acorde-a”. Depois, ao crescer mais, passou essa fase. Por causa disso eu sempre fui muito corajosa e justa. Quando tive meu filho nunca deixei que suas amas cantassem aquelas cantigas de ninar tipo “dorme neném que a cuca vem pegar”. Por aqui vou parar, amanhã será o terceiro capitulo, você imagine quanta coisa ainda tenho para contar, foram 80 anos de vida...

Abraço sua amiga Jenny.

Nenhum comentário: