“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

29/03/2011

Carta de Jenny Scavinsky: O sofrimento dos imigrantes


Por aqui estamos esperando o resultado da cultura da urina que levei para o hospital escola de Bragança Paulista. Essa cidade me lembra meu cunhado Osório Lara, toda vez que ele ia para Bragança, trazia lingüiça de lá.

Bem, vou reatar o fio da memória. Parei quando meus pais já estavam na fazenda aos redores de Ribeirão Preto, eu prefiro não relatar o nome do dono da mesma, é para não ter futuros aborrecimentos. Começaram a surgir problemas com os patrícios de meus pais. Um caso: ele pianista, ela professora lá na Lituânia, vieram na esperança de melhorar de vida, mas qual, não sabiam nada de agricultura e deram com os burros n´água. Numa manhã encontram o pianista enforcado numa árvore, havia se suicidado. Foi uma consternação.

Como mamãe era muito inteligente e já falava algumas coisas em português, ela foi incumbida de ir à cidade falar com o Vice-Cônsul. Ela foi de caminhão e chegando lá relatou o sucedido. Aproveitou para contar a situação que ela e a família estavam passando na fazenda. Quando eles chegaram, o dono muito orgulhoso nem veio cumprimentá-los, mandou em seu lugar uma bacia com frutos. Mamãe não chegou a conhecê-lo, anos mais tarde a esposa desse fazendeiro foi freguesa da mamãe. Minha mãe aprendeu o corte francês, costurava muito bem, inclusive fazia os ternos do meu pai. Então estando com o Vice-Cônsul, pediu-lhe o favor de trazê-los para a cidade de Ribeirão. Esse concordou, pediu à mamãe para não comprar mais nada na caderneta, mesmo que passassem fome, assim o capataz não teria condições de negar a saída da fazenda, e assim foi feito.

Quanto ao pianista morto foi enterrado em Ribeirão e o Consulado arranjou passagem de volta para a professora. Triste não? Meu pai teve dificuldade de aprender o português, ele era um homem forte tinha 1.85 de altura, tinha cabelos negros e olhos azuis. Bondoso, não sabia dizer não aos pedidos de pessoas necessitadas. Mamãe era baixinha, cabelos claros, olhos cinza, com manchas douradas. Ela tinha traços asiáticos, puxou ao pai dela. Lá de casa ninguém saía sem comer alguma coisa. Meu pai para poder viver e dar sustento à família não escolhia serviço. Foi assentar dormente na Mogyana, estrada de ferro, e no meio do nada pegou Malária e sofreu muito. O medicamento acabou com o fígado dele. Papai era exímio ferreiro, cozinhava bem, pois todo homem de lá tem que saber cozinhar, ele fazia geléia de jabuticaba como também licor da mesma.

Quando lá na Lituânia chega o inverno, dura seis meses e é terrível! Geralmente tem duas casas: uma de madeira para o verão e outra de Pedra, onde tem no meio das paredes calefação para poder aturar o inverno. Eles têm um galpão onde guardam animais, sementes para o plantio na primavera. E lá, queimam madeira ou carvão mineral durante 24 horas. Mamãe dizia que quando os animais defecavam, as fezes antes de caírem no solo já congelavam.

Quando eu morava no Ceará minha mãe foi me visitar. Ao chegar, viu a terra e disse "o nordestino devia se sentir feliz por morar numa terra que tem o sol sempre brilhando e pode plantar o ano inteiro".

Voltando à ida dos meus pais para a cidade, deram um duro danado. Haviam três crianças para sustentar, aluguel de casa para pagar, e assim por diante, e o dinheiro que ganhavam não dava. Mamãe começou costurando nas casas, e o ganho era pouco, muito explorada, quando ficou grávida - era eu que viria ao mundo - então mamãe conseguiu comprar uma máquina de costura "Singer".

Minhas irmãs mais velhas começaram a namorar e assim foram casando, saindo de casa para cuidarem de suas vidas. Quando nasci em 1929, a cidade era uma beleza, cresci numa cidade rica, muito limpa e acima de tudo os ribeirão-pretanos eram muitos honestos. Em 1932 houve uma revolução, e vieram soldados de Minas Gerais, eram tão ignorantes que arrancavam torneiras nos jardins das casas e diziam que, quando voltassem para suas casas, lá em Minas, iriam fincar os canos para obter água.

Abrações, Jenny

Nota:

Fiz uma viagem virtual e rápida à Lithuania, estimulada pelas origens de Jenny. Encontrei no blog "viajar entre Viagens" algumas fotos de Trakkai, onde há um castelo (daqueles de fadas) cercado por lagos e que fica numa região chamada Vilnius. Veja algumas fotos deste lugar da Lituânia, capturadas na viagem real feita por Carla Mota e Rui Pinto, autores do Blog.


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