“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

25/03/2011

Carta de Jenny Scavinsky: Da Lituânia para uma tapera de pau a pique



scarecrow

 by 

draganm

Oi Felipe! Estou um pouco atrasada devido ter de fazer outras coisas. Eu já vou-lhe avisando que sofro de dislexia, tenho dificuldade com o português, às vezes fico pensado como consegui estudar e trabalhar normalmente como pessoas sem esse problema. Às vezes tenho dificuldade de guardar coisas sobre língua portuguesa. Vou muito bem nas outras matérias. Uma ocasião eu contei ao meu sogro, ele foi um eminente médico em Juazeiro do Norte, Ceará, sobre o meu problema de guardar nomes e faces de pessoas recém apresentadas, disse que eu sofria de afazia nominal e facial. Hoje, ainda misturo ou troco nomes de pessoas, é necessário muita convivência, a não ser que a pessoa tenha uma personalidade influente.

Para trabalhar como secretária, fiz o curso na ASSIM, Associação Cristã de Moços. Lá eu trabalhei durante quatro anos e fiz o curso em dois, imagine que aprendi a Taquigrafia, coisa feita, ou melhor, escrita de sinais, estudei o inglês comercial. E depois fui trabalhar numa firma norte-americana chamada Union Carbide, aqui no Brasil situada na via Anchieta, com o nome National Carbon.

Foi uma bela época da minha vida. Tive três cargos lá, Secretária do Departamento Pessoal, de Relações Industriais e Secretária da CIPA, este era um órgão de assistência de proteção ao funcionário, quando chegava uma máquina nova no departamento da fábrica era necessário chamar os técnicos para saber qual o perigo que ela podia ter para o funcionário. Aqueles tempos, idos de 1958, quando ia começar a trabalhar passávamos uma semana em cada departamento. Daí, nos tempos presentes eu não sei se alguma firma, escritório ou mesmo fábrica procede assim como a tal National, àquela época era horrível trabalhar em firmas que não fossem norte-americanas. 

Agora vamos falar dos meus pais que vieram para o Brasil em 1925, estavam na capital da Lituânia, lá começaram a ver cartazes do Brasil, dizendo que no mesmo o ouro corria pelas rua, e as pessoas que viessem para cá (Brasil) ficariam logo ricos.

Quem é que não ficaria entusiasmado com essa proposta? O socialismo tinha se instalado em 1917 na Rússia e logo chegaria lá, e eles não queriam viver nesse regime, pois, eram meio abastados (não quero dizer ricos), então vieram para cá, tiveram a infelicidade de aportar no estado de São Paulo, com isso indo diretamente para Ribeirão Preto, uma fazenda de café, algodão, e lá foi lhes dado uma tapera de pau à pique, o chão de terra não tinha fogão, nem mesa, cadeiras, camas, etc.

Amanhã, escrevo-lhe a odisséia dos meus pais aqui no Brasil, eles e três filhas. 

Abraços Jenny.


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