“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

30/03/2011

Mais um dia, e nem por isso me tornei melhor


A manhã chegou arrastando-se, pesada, carregando pesadelos que perambularam pela noite. Chegou carregando os gemidos de quem não dormiu, com alguma dor, carregando choros dos recém-nascidos que serão abandonados nas lixeiras, e lamento das carpideiras que nem sei se existem fora das histórias que contam no sertão. Trouxe grunhidos de bicho longe, na mata. E das ruas da cidade, asfaltos trepidantes trincando aos nossos pés.


Mais um dia, e nem por isso me tornei melhor. Essa manhã, assim pesada, me grita todos os meus defeitos e maldades. E a manhã fica ainda mais pesada, porque carrega o meu cansaço e incerteza. Parece que carrego culpa... de quê? Mãe, não é você a culpada da minha melancolia. Do meu jeito de ser arisco. Da minha indelicadeza. A minha ignorância [e doçura] é compatível com a evolução do mundo. Somos assim. Bons e maus, cada um a seu tempo. Peço desculpas por ser rude. Na verdade, os defeitos que aponto nos outros, são os meus. A gente quer se livrar de si, julgando.

Os sentimentos que entendemos, são apenas os nossos sentimentos. Cada um compreende o amor, ou o ódio, conforme o sente e vê. Conforme recebe... O que sei é o que sinto, impossível saber como o outro se sente, apenas imagino, interpreto. Mãe, desculpa por te fazer chorar no dia do seu aniversário. Você é tão forte, geniosa e teimosa, que a gente não se lembra que já tem 80 anos! Ainda bem! Terei tempo de me redimir? (Ada, 30/3/2011)

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