“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

21/03/2011

Volto no tempo para 1976


Um desenho de Cordel. Pena que aquele desenho do Ianelli tenha se perdido no tempo

Volto no tempo para 12 de outubro de 1976. O padre João Bosco Penido Burnier fora assassinado em Goiânia (GO), baleado por um policial, na tarde anterior em Ribeirão Cascalheira (MT) quando, junto com Dom Pedro Casaldáliga, intercedia em favor de duas mulheres presas que eram torturadas. O assassino foi um soldado que lhe deu um soco, uma coronhada e um tiro de bala dundum na cabeça. 

O Padre se dedicava à Missão de Diamantino (MT), servindo junto aos índios beiços-de-pau e bacairis, quando participava da coordenação regional do Conselho Indigenista Missionário. Era o auge dolorido da ditadura militar. Os padres jogavam à época, um papel importantíssimo na luta pelos direitos do povo, na defesa dos que eram perseguidos pela ditadura exatamente por lutarem com o povo, e consequentemente eram mortos e tombavam como abnegados defensores da liberdade.

Na madrugada dos dias que se seguiram ao assassinato do Padre Burnier, um pequeno grupo de estudantes universitários saía pelo campus da USP, num protesto silencioso e perigoso à esta execução, pregando cartazes feitos em silk screen, nos prédios da universidade.

O desenho usado nesta serigrafia era muito bonito, estilo cordel, com o padre desfalecido de braços abertos. Uma expressão de dor e seu nome estampado denunciavam a truculência dos militares. O desenho era do artista Rubens Ianelli. Pena, se perdeu no tempo, resta-me apenas uma vaga lembrança deste desenho. Éramos então jovens estudantes de arquitetura da faculdade de Guarulhos, apaixonados, engajados, iniciantes na luta política e no movimento estudantil que jogou papel contundente neste período.

E tanta coisa dá para puxar da memória sobre os tempos desta juventude nos anos de chumbo... O que ficou deste tempo, além de súbitas e extemporâneas lembranças, foi a opção de lutar pela liberdade e pelo socialismo e que permanece e permeia minha vida até os dias de hoje. 


Nota: 

Com 33 anos de atraso, o Governo Federal admitiu, no início de dezembro de 2009, através do trabalho da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, que o assassinato do Padre Burnier, foi provocado pelo regime militar. O reconhecimento oficial da culpa do Estado na morte, repara um erro histórico e abre caminho para a indenização dos familiares de Burnier. 
Veja detalhes da morte do padre no trecho extraido do documento escrito pela CNBB – Conferência Nacional de Bispos do Brasil – em outubro de 1976: 




Um comentário:

Helena disse...

Ola Ada! Devemos sempre manter vviva a memoria da repressao, tortura, de um regime de excecao, de intolerancia com ideias diferentes.