“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

05/05/2011

Carta de Jenny Scavinnsky: Deitada na relva imaginava São Jorge e seu dragão





Eliana, quando eu li sua postagem a respeito da sua estadia num colégio, recordo de ter passado por essa experiência quando meu pai faleceu e minha mãe ficou alheia à tudo, meio desvairada, e então achou melhor eu ir para o colégio Santa Terezinha da irmandade João Bosco. E lá fui eu, super chateada, iria ficar longe de meus bichos, da minha casa, do meu quintal onde tinha minhas aventuras e que às vezes me achava a Jane do Tarzã e o meu jegue era a minha Chita, e a mata era um bocado de pés de mamonas, e o charco que existia no fundo quintal era o pantanal, e assim por diante.

Chegando no colégio - nossa que depressão - mamãe levou um pano de parede para bordar e o desenho era um casal de holandeses. E as freiras quando viram o pano, proibiram. Disseram que tinha homem e lá não era permitido, nem em pensamento. Como eu era órfã de pai, não precisava pagar, iria servir sobremesa para as alunas riquinhas e essas, meu Deus, umas entojadas de nariz erguido, e muito sem vergonhas. Foi lá que aprendi que à noitinha era hora de rezar o terço e bordar e isso ia até nove da noite. Essas meninas eram incriveis, um dia pularam o muro do cólegio e fugiram.

Minha mãe vinha me visitar no fim de semana, da minha parte era aquele chororô, aumentava até, para que se apiedasse e me levasse para casa, mas qual o quê.  Lembro que na hora do banho, ficávamos com uma bata e por baixo dela esfregávamos o corpo com o sabonete e que na porta da saída do banheiro, ficava uma freira vigiando. À noite no dormitório outra freira ficava espionando nossa dormida, e assim passaram-se seis meses, até que Dona Genoveva ficou com a cabeça mais forte e me levou para casa.

Finalmente eu estava livre, ia voltar aos braços de Dona Cândida, seu papagaio, meus gatos e Lord o cachorro da mamãe, esse cachorro era da raça Lulu da Pomerânia, era branco do focinho, labios e olhos pretos, um encanto, muito inteligente, viveu até os 14 para 15 anos.

Sim, também voltei para cuidar do jardim de dona Genoveva, hortências, rosas em profusão, sete dedos, costela de adão e outras mais, ela conseguia mudar a cor das hortências, umas eram cor de rosa, outras lilazes e outras azuis.

Tempo divino, cheio de magia, quando era noite de luar, eu ficava deitada na relva, olhando para a lua e imaginando como era São Jorge, e o que ele fazia lá, se teria namorada, e se seu Dragão era de fato muito bravo e esguichava fogo...

Era sonhadora e passional, muito.

Beijocas, Jenny.

(21/3/2011)

Um comentário:

OH! GranDiOso FÁ disse...

Que beleza de texto!As palavas caem sobre a pele como um sereno morno e nos perguntamos: É possível isso, ou é sonho?