“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

28/11/2011

Um texto preciso de Virgínia Woolf, em Flush memórias de um cão


Um trecho preciso de Virgínia Woolf, em Flush memórias de um cão, sobre o faro dos cães, descreve com tanta poesia e sensibilidade as andanças de seu personagem, como se ela própria fosse um cão, todos os cheiros possíveis invisíveis e visíveis em seus formatos e cores. Materializa-os tão poeticamente que temos a certeza de que “nenhuma única de suas infinitas sensações jamais foi submetida à deformidade das palavras”.

Compartilho esse trecho com você. Há de concordar que Virginia faz fluir música e letra na ponta de seus dedos. E também, que um cão é maravilhoso motivo para se fazer literatura.

Mas Flush perambulava pelas ruas de Florença para apreciar a percepção dos cheiros. Traçava seu caminho através de ruas importantes e de vielas, através de praças e de becos, guiado pelo olfato. Ia traçando seu caminho de um perfume a outro; os ásperos, os amenos, os escuros, os dourados. Entrava e saía, subia e descia, onde se martela latão, onde se assam pães, onde as mulheres penteiam os cabelos, onde as gaiolas de passarinhos empilham-se pelas passagens, onde o vinho salpica manchas vermelho-escuras no calçamento; onde os cheiros de couro, de arreios e de alho se emanam, onde se batem roupas, onde folhas de parreira estremecem, onde homens acomodam-se para beber, cuspir e jogar dados – corria para dentro e para fora, sempre com o focinho grudado ao chão, bebendo da essência; ou com o focinho no ar, vibrando com o aroma. Dormia aqui neste retalho quente de sol – como o sol fazia as pedras cheirarem forte! -, procurava aquele túnel de sombra – como a sombra fazia exalar um cheiro acre da pedra! Devorava cachos inteiros de uvas maduras, principalmente por causa de seu cheiro púrpura; mastigava e cuspia qualquer resto endurecido de cabrito ou de macarrão que a dona da casa italiana tivesse jogado por cima do parapeito da sacada – cabrito e macarrão eram cheiros ásperos, cheiros vermelho-carmim. Seguia a doçura desfalecida do incenso dentro das reentrâncias violetas das catedrais escuras; e, fungando, tentava absorver o dourado do mausoléo com janelas de vitrais coloridos.”



2 comentários:

Luis Alfredo disse...

Ada

Eu poderia, ou melhor, gostaria de ter escrito esse texto para descrever meu cão Kevin, um vira-lata que tem como pai um Beagle, de quem ele herdou o faro faríssimo.
Parabéns para você que soube farejar até nos presentear com essa bela peça de VW,

Coisas de Ada disse...

Bem vindo! Eu que agradeço!