“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

28/04/2012

O piano de Ada é sua maior paixão



O piano de Ada é sua maior paixão... e aquele piano largado na areia espelhada pelo mar, aquela cena cinzenta na desolada praia brava, que exala cheiro de sal e brisa grudente e fria, desperta os sentimentos incompreensíveis da melancolia. Uma solidão remota, quase ausente, perdida num passado em branco e preto que pulsa qual as teclas na canção do piano, que sempre cobicei, e uma tristeza longínqua por todas as mulheres que sofreram ao longo de séculos e milênios, antes de mim e sabe-se lá até quando, ceifadas de sua liberdade. Vi e revi "O Piano", porque o filme merece. Até porque, adoro piano e a história, uma violenta história de amor, tem final feliz. A mocinha do filme se chama Ada, interessante coincidência, e me comoveu muito a força e a coragem com que lutou por seu amor e seu piano.

O enredo
À época que a Nova Zelândia estava sendo colonizada, pode-se ver os indígenas Maori trabalhando para o branco colonizador Stewart. Um lugar inóspito, lamacento, chuvoso. É para lá que se muda Ada McGrath, que com seis anos de idade resolveu parar de falar e nem ela sabe porque. Ela vai na companhia de sua filha, Flora. Ela se casará com Stewart, desconhecido para ela, num casamento arranjado por seu pai.
A viagem é pelo mar tempestuoso e num precário barco ela chega à praia onde, entre suas malas, há a bagagem principal, seu piano. Ela passa uma noite com sua filha acampada na praia em um saiote - que à época era feito de armações em madeira - esperando virem buscá-las... que recepção! que decepção! Isso e mais a negação dos Maoris, com a conivência de seu marido em levar o piano até a aldeia, a faz rejeitar o futuro marido...

O piano fica largado na praia exatamente onde desembarcou e a cena mais linda do filme é quando George Baines, um Maori, a leva para tocá-lo à beira mar. Ela expressa todos os sentimentos tocando e tocando e tocando emocionadamente aquele piano, diante do mar bravio, até anoitecer. Sua voz e palavras são o piano e Baines então se apaixona por ela...

Baines compra o piano de Stewart em troca de terras e de aulas de piano. Nestas aulas, Baines pacientemente vai conquistando Ada, suavemente a cada carícia ela ganha um "vale uma tecla" até que todas as teclas tenham sido trocadas por carícias... uau!! Eles descobrem o amor verdadeiro. Esta situação sai do controle, o marido descobre a traição e a tragédia está posta. O resto não vou contar!

Uma curiosidade sobre a a Nova Zelândia é que ela é famosa por suas leis sociais e pelo respeito aos direitos humanos. Foi o primeiro país de governo autônomo a dar às mulheres o direito ao voto (1893), e aos idosos o direito às pensões. Além de ter a primeira cidade do mundo - Nelson - a fixar em oito horas a carga horária diária de seus trabalhadores. Não sei se isso redime os colonizadores, mas deve ter havido muita luta de seu povo. Mas isso é oura história.

O Piano é um drama, de 1993, escrito e dirigido pela neozelandesa Jane Campion. O filme é considerado um dos expoentes do cinema da década de 1990. A música: Michael Nyman, "The heart asks the pleasure first" ou "O coração pede primeiro prazer" e è a que toca no vídeo. Linda!

Nenhum comentário: