“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

30/04/2012

Os haicais de Joaquim Pedro Barbosa

da gaiola
só o canto
voa

(Joaquim Pedro Barbosa)

Esse texto, abaixo, com o qual comungo, é de André Luiz dos Santos, poeta e professor da Universidade Estadual de Goiás e complementa a justa Apresentação que fez do "Caderno Dois", um livro de Haicais de Joaquim Pedro Barbosa, mineiro, 51 anos e amigo virtual de longa data.

Joaquim Pedro Barbosa e eu, trocávamos mensagens quando ele escrevia para o "Prosa e Poesia" do Portal Vermelho, onde trabalhei editando colunas. Foi lá que conheci seus haicais e aprendi a admirá-lo por sua sensibilidade e habilidade com as poucas palavras, mas que dizem um universo. Escrever haicais, é raro e não é fácil. Há que se fazer a sistematização de um acontecimento de forma poética e, com sagacidade, passar a emoção do momento.

Essa postagem é uma forma singela de homenagear e agradecer a amizade de Joaquim, que me enviou os haicais de presente e dedicou "Caderno Dois", entre outras pessoas, a mim. Quanta honra foi ver meu nome em seu livro! Tento retribuir, assim, a nossa amizade que ele recebeu com tanta consideração!


Caderno Dois (2011) é o segundo livro do autor mineiro.
O primeiro, 
Caderno Verde: Haicais e Outros Menos, é de 2006. 
"Os que chegam em nosso mundo encontram um tempo de muitas palavras. A televisão, a internet, a política, a educação, os jornais e as revistas produzem incessantemente informações. Palavras sobre o mundo, as pessoas e a natureza. Por outro lado, se depararão com a nossa solidão, o nosso medo e a violência. O filósofo húngaro Georg Lukács diz, melancolicamente, sobre o nosso mundo que "ser homem significa ser solitário". Os novos estranharão a incomunicabilidade de um tempo de tantas palavras. E esta contradição diz mais de nós mesmo do que as próprias palavras.

O poeta paranaense Paulo Leminski conta a história de um tempo muito feliz para a poesia, uma época em que só era permitido fazer um poema com três palavras. Depois desse tempo, os poetas descobriram que se poderia fazer poesia com quantas palavras quiserem. Mas o tempo feliz da poesia era também um tempo feliz da palavra e dos homens. Se existe felicidade, uma proximidade verdadeira entre as pessoas, não é necessário tanto palavrório. O psicólogo russo Lev Semenovich Vigotski afirma que, para Tolstoi, "quando duas pessoas vivem em íntimo contato psicológico, essa comunicação por meio da fala abreviada constitui a regra, e não a exceção".

Longe desse tempo as palavras devem conter em si esta recordação. As palavras guardam em algum lugar a saudade do tempo em que valiam a felicidade dos homens, assim como guardamos em nossos sonhos recordações de felicidades de nossa infância. Estas imagens oníricas é o que nos motiva, o que acende e ilumina os nossos desejos. Por isso, é preciso sonhar e, talvez, não se esquecer de acreditar no sonho feliz da palavra.

Joaquim Pedro Barbosa, poeta mineiro, lançou recentemente o seu primeiro livro de poesia, Caderno Verde: Haicais e Outros Menos, querendo assim mostrar para todos sua amizade com as palavras. Os bons amigos são fiéis à infância. É uma cumplicidade de poucas palavras, de quem sabe que é a infância o verdadeiro lugar do desejo. Este encontro aparece feliz no poema, "crescer/ CRESCER/ até virar/criança", e brincando com a chuva, "quanta goteira!!!!/ no lugar da telha/ uma torneira".

No entanto, esta literatura não vira as costas para o mundo com seus ruídos e tumultos, é solidária com a cidade grande. "Quanta coisa Nova na metrópole/ inclusive a lua". Refere-se à leitura, e a nossa insistente incapacidade de repartir este ato a todos, de uma forma bem-humorada, como se houvesse insatisfação da própria palavra, "o anal-fa-batismo/ é um c...". A leitura é, ou deveria ser, uma luz a iluminar corações e mentes, "acendeu a luz e leu/ leu e a luz se acendeu".

O Caderno Verde de Joaquim Pedro Barbosa é um livro sobre a natureza. Não esta natureza, que serve de pretextos e subterfúgios de homens que não sabem olhar nem para si próprio, nem para os outros que os cercam, criando apologias que lhes permitem destruir e dormir em paz. Na natureza dos poemas de Joaquim Pedro estão o homem, a cidade, os bichos, as plantas e a palavra. E assim, como um velho ditado, se refere ao Cerrado, "Deus escreve certo por lenhas tortas". Sobre a liberdade, sem a qual não são possíveis a invenção, o amor e o canto, escreve, "da gaiola/ só o canto/ voa". 


Joaquim Pedro Barbosa
A leitura dos poemas de Joaquim Pedro Barbosa, tão infinitamente pequenos, é um caminho a tão demasiada e leve grandiosidade da palavra. É um encontro com os tempos antigos e felizes da palavra. Os que chegam ao nosso mundo terão orgulho de saber da existência de um sonho em que o mais importante e fundamental a ser extraído da natureza é a sua beleza, para assim poderem imaginar uma segunda natureza mais humana" (Andre Luiz dos Santos). Este texto foi copiado do vermelho.org.
Ler também Poesia concisa, precisa

Alguns haicais de "Caderno Dois" estão na página deste blog: Haicai.

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