“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

16/05/2012

Mantecal à moda espanhola da Vó Gusta

Nunca mais comi um mantecal legítimo. Talvez sim, mas como o da vó Augusta não mesmo! Aquele era para mim o legítimo sabor do mantecal e está registrado e inesquecível. Nos dias de festa, no aniversário dela, ou no natal, a netarada dos seus dez filhos se juntava pro almoço. Na garagem de sua casa - o maior espaço - era possível abrir a mesa de fórmica que aumentava de tamanho, sabe aquelas rajadinhas imitando mármore cinza? E juntávamos todas as cadeiras e bancos e banquetas da casa, até aquela da "penteadeira" para degustarmos uma de suas especialidades: o grão de bico com frango [puchero à moda da vó Gusta].

A hora esperada por mim era mesmo a do lanche, quando ela servia a outra especialidade da casa: mantecais! Vinham em potes de vidro e a vó dizia em segredo e bem baixinho que os fazia especialmente para mim.Todos os netos serão capazes de afirmar o mesmo, e com o mesmo orgulho de neto preferido, dirão que os mantecais eram feitos especialmente para eles. Coisa de vó que quer agradar a todos os netos. Coisa de minha avó, fortaleza de energia e alegria, mas também de braveza, um exemplo de luta. Uma mulher admirável que trabalhou na roça com seus filhos amarrados às costas. Abortou vários outros pelo trabalho forçado na enxada de sol a sol nas plantações de café. Mesmo assim, pariu dez.

Minha avó, espanhola do clã Martins Del Pino, misturado com os Fernandes, veio nos navios da emigração espanhola nos idos anos de 1900, para as plantações de café no interior de São Paulo. Ela era criança bem pequena [uns dizem que ela nasceu em 1901] e, com seus pais e irmãos, foram para Monte Azul interior de São Paulo, plantar e colher café. Ela deve ter aprendido com sua mãe a receita do mantecal e também a braveza dos espanhóis: "Hay gobierno nesta tierra, soy contra!"

O jeito dela agradar seus netos - e quantos netos - era peculiar, sem beijos nem abraços, mas mantecal e risadas nunca faltava! Ela nos deixou aos 95 anos, em março de 1996.


Encontrei uma receita intitulada "Mantecal à moda espanhola", mas não sei se ela assim os fazia. Porém, como eles ficam redondinhos, branquinhos com um talho sobre eles, creio que a semelhança seja grande!

Mantecal à moda espanhola
Rendimento: 70 biscoitinhos 
Ingredientes 
250g de banha (ou gordura vegetal)
250g de açúcar (cristal de preferência. eu usei o cristal orgânico)
500g de farinha de trigo
Misture a banha com o açúcar até ficar bem cremoso. Adicione a farinha e amasse até formar uma massa compacta e homogênea. Faça bolinhas e amasse em cima com o dedo até fazer marca (*). Coloque o forno a 180°C durante 15 minutos. Ele tem que ficar com a aparência de cru, mas embaixo fica dourado.

(*) Nota:Creio que minha avó fazia um talho sobre os biscoitos, antes de levá-los ao forno, usando uma faca pois ao assar, esse talho se abria e crescia deixando o mantecal com o formato mais redondo que o da receita.. 

mantecal


10 comentários:

Cláudio Gonzalez disse...

Dona Eliana, cadê a goiabada deste mantecal? rsrsrs
Eu fiz em casa e em alguns coloquei geléia de jabuticaba, que é o que tinha na geladeira. Ficaram ótimos. Se sobrar um aí na sua casa, traz pro seu amigo. rsrsrs
Abs

Ada disse...

Querido "maitre" Claudio, o verdadeiro mantecal espanhol, não leva geleia sobre ele... isso deve ter sido uma versão abrasileirada e originária dos "bem-casados" feitos na roça. O mantecal de minha avó eram assim mesmo como descrevo na receita, branquinhos e desmanchavam na boca, impossível comer um só!

Maga Gavioes disse...

Ahiiiiiiiiii Eliana que saudade dos meus Avós,minha Vó tambem veio de navio escondida com 3 anos em 1901e na casa dela era diferente quem fazia Mantecal era meu Vô no Natal ..ele fazia muito e assava na padaria depois ele dava um pouco pra cada um levar p casa..se cheguei a experimentar não me lembro ele morreu eu tinha 3 anos então não me recordo de muita coisa,minha mae e tias sempre faziam ..mas hoje minha mae ja é idosa e naõ ta muito bem então...Mas serio vi a foto dos seu Mantecal senti o cheiro ,e o sabor da saudade da minha doce infancia com meus buelos ahahaha mto bravos Espanhois..obrigado por esse mimo.....bju no coração Maga
obs se não quiser não precisa postar o meu comentario ..me deu muita vontade voltar o tempo e viver tudo aquilo novamente

Eliana Ada Gasparini disse...

Olá Maga! Pois é, a infância deixa marcas na gente né? Principalmente cheiros e sabores, são os sentidos mais aguçados nas minhas lembranças... Obrigada por comentar e compartilhar comigo sua saudade, que é bastante semelhante à minha. Abraços.

Maga Gavioes disse...

Oi Eliana tudo bem ? Olha eu aqui esse ano novamente e dessa vez p desejar boas festas e um 2015 maravilhoso a voce e aos seus ...to aqui começando com os meus mantecais que sempre fazem o maior sucesso e deixam a vida muito saborosa bjão

Eliana Ada Gasparini disse...

ÒH Maga! Bem vinda! Que maravilha que fará mantecais! Sabe que me deu uma baita ideia boa? Farei no Ano Novo uma fornada para reverenciar os bons tempos! Desejo a você uma energia muito boa para colocar nos seus mantecais, assim as crianças de sua familia levarão consigo essas boas coisas que ficam da vida... Beijos e Feliz 2015!

Angélica Silva disse...

Minha vó e madrinha que... tbem veio no navio... Tbem fazia os maravilhosos mantecais. Ela já se foi, mas minha mãe aprendeu a receita. Além dos ingredientes citados acima, acrescentamos na massa: canela em pó, cravo em pó e uma dose de pinga. Após assá-los, passamos no açúcar com canela. Fica uma delícia!!! E igualzinhos os dela!

Eliana Ada Gasparini disse...

Que interessante Angelica! Estes ingredientes acrescentaram um sabor especial.. vou experimentar. Obrigada!

Ateliê dos Mantecais. disse...

Gostei muoto de ler sua história. Nao sou de familia espanhola, mas aprendi a receita com uma amiga o que me levou a abrir um ateliê.
Procuro seguir a receita tradicional que foi o que me levou a deixar uma catreira de mais de 20 de gestora comercial na area de assistencia medica e me dedicar a estas delicias.

Cristiane - Coordenadora Pedagógica - EF Anos Finais disse...

Isso mesmo! Minha abuelita tb fazia assim. Também veio na imigração e trabalhou nas fazendas, também teve 9 filhos e dizia a mesma frase: "Se hay un gobierno nesta tierra jo soy contra" família de anarquistas. Só que os sobrenomes são Navarro, Lopes e Ortega. Saudade do mantecal dela. Huummm