30 de jun. de 2014

Fernando Pessoa: Mar Português

I. O INFANTE 

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. 
Deus quis que a terra fosse toda uma, 
Que o mar unisse, já não separasse. 
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente, 
Clareou, correndo, até ao fim do mundo, 
E viu-se a terra inteira, de repente, 
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te portuguez.. 
Do mar e nós em ti nos deu sinal. 
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. 
Senhor, falta cumprir-se Portugal! 
 

II. HORIZONTE 

O mar anterior a nós, teus medos 
Tinham coral e praias e arvoredos. 
Desvendadas a noite e a cerração, 
As tormentas passadas e o mistério, 
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério 
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa — 
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta 
Em árvores onde o Longe nada tinha; 
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores: 
E, no desembarcar, há aves, flores, 
Onde era só, de longe a abstrata linha

O sonho é ver as formas invisíveis 
Da distância imprecisa, e, com sensíveis 
Movimentos da esp'rança e da vontade, 
Buscar na linha fria do horizonte 
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte — 
Os beijos merecidos da Verdade. 
 

III. PADRÃO 

O esforço é grande e o homem é pequeno. 
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei 
Este padrão ao pé do areal moreno 
E para diante naveguei. 
A alma é divina e a obra é imperfeita. 
Este padrão sinala ao vento e aos céus 
Que, da obra ousada, é minha a parte feita: 
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano 
Ensinam estas Quinas, que aqui vês, 
Que o mar com fim será grego ou romano: 
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma 
E faz a febre em mim de navegar 
Só encontrará de Deus na eterna calma 
O porto sempre por achar. 
 

IV. O MOSTRENGO 

mostrengo que está no fim do mar 
Na noite de breu ergueu-se a voar; 
A roda da nau voou três vezes, 
Voou três vezes a chiar, 
E disse: «Quem é que ousou entrar 
Nas minhas cavernas que não desvendo, 
Meus tetos negros do fim do mundo?» 
E o homem do leme disse, tremendo: 
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço? 
De quem as quilhas que vejo e ouço?» 
Disse o mostrengo, e rodou três vezes, 
Três vezes rodou imundo e grosso. 
«Quem vem poder o que só eu posso, 
Que moro onde nunca ninguém me visse 
E escorro os medos do mar sem fundo?» 
E o homem do leme tremeu, e disse: 
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu, 
Três vezes ao leme as reprendeu, 
E disse no fim de tremer três vezes: 
«Aqui ao leme sou mais do que eu: 
Sou um povo que quer o mar que é teu; 
E mais que o mostrengo, que me a alma teme 
E roda nas trevas do fim do mundo, 
Manda a vontade, que me ata ao leme, 
De El-Rei D. João Segundo!» 
 

V. EPITÁFIO DE BARTOLOMEU DIAS 

Jaz aqui, na pequena praia extrema, 
O Capitão do Fim.  Dobrado o Assombro, 
O mar é o mesmo:  já ninguém o tema! 
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro. 
 

Vl. OS COLOMBOS 

Outros haverão de ter 
O que houvermos de perder. 
Outros poderão achar 
O que, no nosso encontrar, 
Foi achado, ou não achado, 
Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca 
É a Magia que evoca 
O Longe e faz dele história. 
E por isso a sua glória 
É justa auréola dada 
Por uma luz emprestada. 
 

VII. OCIDENTE 

Com duas mãos — o Ato e o Destino — 
DesvendAmos. No mesmo gesto, ao céu 
Uma ergue o fecho trêmulo e divino 
E a outra afasta o véu.

Fosse a hora que haver ou a que havia 
A mão que ao Ocidente o véu rasgou, 
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia 
Da mão que desvendou.

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal 
A mão que ergueu o facho que luziu, 
Foi Deus a alma e o corpo Portugal 
Da mão que o conduziu. 
 

VIII. FERNÃO DE MAGALHÃES 

No vale clareia uma fogueira. 
Uma dança sacode a terra inteira. 
E sombras desformes e descompostas 
Em clarões negros do vale vão 
Subitamente pelas encostas, 
Indo perder-se na escuridão.

De quem é a dança que a noite aterra? 
São os Titãs, os filhos da Terra, 
Que dançam na morte do marinheiro 
Que quis cingir o materno vulto 
— Cingiu-o, dos homens, o primeiro —, 
Na praia ao longe por fim sepulto.

Dançam, nem sabem que a alma ousada 
Do morto ainda comanda a armada, 
Pulso sem corpo ao leme a guiar 
As naus no resto do fim do espaço: 
Que até ausente soube cercar 
A terra inteira com seu abraço.

Violou a Terra. Mas eles não 
O sabem, e dançam na solidão; 
E sombras disformes e descompostas, 
Indo perder-se nos horizontes, 
Galgam do vale pelas encostas 
Dos mudos montes. 
 

IX. ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA 

Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra 
Suspendem de repente o ódio da sua guerra 
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus 
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,  
Primeiro um movimento e depois um assombro. 
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro, 
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.

Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta 
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovôes,  
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta. 
 

X. MAR PORTUGUÊS 

Ó mar salgado, quanto do teu sal 
São lágrimas de Portugal! 
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, 
Quantos filhos em vão rezaram! 
Quantas noivas ficaram por casar 
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena 
Se a alma não é pequena. 
Quem quer passar além do Bojador 
Tem que passar além da dor. 
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, 
Mas nele é que espelhou o céu. 
 

XI. A ÚLTIMA NAU 

Levando a bordo El-Rei D. Sebastião, 
E erguendo, como um nome, alto o pendão 
Do Império, 
Foi-se a última nau, ao sol azíago 
Erma, e entre choros de ânsia e de presago 
Mistério.

Não voltou mais. A que ilha indescoberta 
Aportou? Voltará da sorte incerta 
Que teve? 
Deus guarda o corpo e a forma do futuro, 
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro 
E breve.

Ah, quanto mais ao povo a alma falta, 
Mais a minha alma atlântica se exalta 
E entorna, 
E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço, 
Vejo entre a cerração teu vulto baço 
Que torna.

Não sei a hora, mas sei que há a hora, 
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora 
Mistério. 
Surges ao sol em mim, e a névoa finda: 
A mesma, e trazes o pendão ainda 
Do Império. 
 

XII. PRECE 

Senhor, a noite veio e a alma é vil. 
Tanta foi a tormenta e a vontade! 
Restam-nos hoje, no silêncio hostil, 
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou, 
Se ainda há vida ainda não é finda. 
O frio morto em cinzas a ocultou: 
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —  
Com que a chama do esforço se remoça, 
E outra vez conquistaremos a Distância — 

Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa

Mar Portugues é um dos poemas mais famosos de Fernando Pessoa. O poema foi publicado no seu livro Mensagem(1934) que é um livro dividido em três grandes temáticas: Brasão, Mar Portuguez e O Encoberto. O poema debruça-se sobre a época das grandes navegações, batendo à porta de figuras como o Infante D. Henrique, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães.

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