“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

18/12/2014

Bertold Brecht: Louvor do esquecimento

Maki Hino - Munecas de papel -  https://cuadernoderetazos.wordpress.com/tag/maki-hino/

Louvor do Esquecimento
(Bertold Brecht)



Bom é o esquecimento. 
Senão como é que 
O filho deixaria a mãe que o amamentou? 
Que lhe deu a força dos membros e 
O retém para os experimentar? 

Ou, como havia o discípulo de abandonar o mestre
Que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
O discípulo tem de se pôr a caminho.

Na velha casa
Entram os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá estivessem
A casa seria pequena demais.

O fogão aquece.
O oleiro que o fez, já ninguém o conhece.
O lavrador,
Não reconhece a broa de pão.

Como se levantaria, sem o esquecimento
Da noite que apaga os rastros, o homem de manhã?
Como é que o que foi espancado seis vezes
Se ergueria do chão à sétima
Para lavrar o pedregal,
para voar ao céu perigoso?

A fraqueza da memória dá
Fortaleza aos homens.

Bertold Brecht
Tradução de Paulo Quintela

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