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5 de ago. de 2014

Flora Figueiredo: Gangorra

Gangorra

Eu namoro a noite,
você apaga a lua;

eu perfumo o lençol,
você dorme na rua;

eu aprumo a estrela,
você a entorta;

eu colho a maçã
você traz a lagarta;

eu rego o ipê
você parte o galho;

eu tempero com sal,
você talha o molho;

eu lavo o cristal,
você trinca a ponta;

eu adoço com mel,
você passa do ponto;

eu beijo na boca,
você faz de conta.

Flora Figueiredo, no livro Chão de Vento


1 de jul. de 2014

Flora Figueiredo: Ilha

Ilha

Não sei por que tanto mar em minha vida.
Ele que fala sempre em despedida,
que canta distância e solidão.
Por vezes parece até que ele vaza,
derruba minha porta,
invade minha casa,
ocupa minha cama,
lava meu chão.
Ele é que faz do leva-e-traz de cada onda
o mensageiro dos afetos separados
lá no horizonte,
onde a terra se arredonda.
São tantos anos de tamanha intimidade,
que hoje carrego a forte sensação
de que o mar alterou-me a identidade:

metade água e metade coração.

Flora Figueiredo

24 de ago. de 2013

Flora Figueiredo:O Plantador de Girassóis

O Plantador de Girassóis
(Flora Figueiredo)

Para Fábio

Lá vai ele semeando azuis.
Passa por terras ácidas,
por marés graves,
que converte em flocos de luz.
Deve ter uma orquestra no bolso
e sementes de sol no coração.
A fila cresce:
o que admira,
a que suspira,
a que padece.
O semeador avança,
a orquestra toca,
o mundo sem querer entra na dança.
A festa aumenta.
Se a noite ciumenta se apresenta
e em protesto espalha seu negrume,
o semeador derrete a escuridão:

seduz a estrela e ascende um vagalume.

2 de mai. de 2012

Flora Figueiredo: O vento anda ficando mentiroso...

O vento anda ficando mentiroso. 
Prometeu trazer você, 
não trouxe. 
Ficou de dizer o porquê, 
não disse. 
Esperou que eu me distraísse, 
passou depressa, 
rumo ao horizonte. 
Já não tem importância 
que cometa outra vez, 
um ato de inconstância. 
Aprendi a esperar. 
Se ventos são capazes 
de levar embora, 
a qualquer hora, também, 
são capazes de fazer voltar. 

(Flora Figueiredo)

31 de mai. de 2011

Flora Figueiredo: Amigo querido, querido amigo




Por onde andamos 
nós que raramente nos falamos? 
Engolidos pela pressa
ou pela saga do compromisso?
O'Deus que maratona é essa?

Deixo um recado de saudade
para você pensar.
Por mais que a vida corra e o mundo agite,
por favor, acredite:
o nosso coração não muda de lugar.

O tempo e a distância
costumam nos arrastar.
É como se folhas de outono
se separassem pelo sopro de algum vento.
Mas nosso coração não muda de lugar.

Conservo a mão estendida,
o peito aberto,
o ombro compreensivo,
o pensamento alerta.
A qualquer hora você pode me chamar.
O meu carinho permanece vivo.
É que nosso coração não muda de lugar...


(Flora Figueiredo)

20 de out. de 2010

Flora Figueiredo: Última página



Última página
(Flora Figueiredo)

Mais uma vez o tempo me assusta. 
Passa afobado pelo meu dia,  
Atropela minha hora,  
Despreza minha agenda.  

Corre prepotente, 
A disputar lugar com a ventania.  
O tempo envelhece, não se emenda. 

Deveria haver algum decreto 
Que obrigasse o tempo a desacelerar 
E a respeitar meu projeto.  

Só assim, eu daria conta 
Dos livros que vão se empilhando,  
Das melodias que estão me aguardando,  
Das saudades que venho sentindo,  
Das verdades que ando mentindo,  
Das promessas que venho esquecendo,  
Dos impulsos que sigo contendo,  
Dos prazeres que chegam partindo,  
Dos receios que partem voltando. 

Agora, que redijo a página final,  
Percebo o tanto de caminho percorrido 
Ao impulso da hora que vai me acelerando.  

Apesar do tempo, e sua pressa desleal,  
Agradeço a Deus por ter vivido,  
Amanhecer e continuar teimando ...  

17 de out. de 2010

Flora Figueiredo: O trem que traz a noite

Hoje, 17/10/2010,  o dia está mais longo em uma hora. Começou o horário de verão.

O trem que traz a noite
( Flora Figueiredo)


O que faz essa tarde luminosa
descartar o lírio,
aborrecer a rosa?

É que o trem que traz a noite
está atrasado.
A tarde quer encontrar seu namorado
e não tem quem deixar em seu lugar.

Se o trem que traz a noite
não chegar,
há de haver bastante alteração:

O dia vai ficar bem mais comprido
e acabar pisando no vestido
da manhã de amanhã
que aguarda a vez.

Quando o trem que traz a noite
vir o que fez,
vai tratar de acertar a sua hora,
pois um trem que se preza
não demora
no vai-e-vem que vem e vai
de lá pra cá.

Ninguém segura a paixão abrasadora
entre uma tarde luminosa e um sabiá.

Conheça Flora, poetiza paulista : http://www.florafigueiredo.com/

Música para este poema é de Alexandre Guerra: Movimento de Primavera