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2 de nov. de 2021

Que vivam os mortos queridos!




Finados. A luz da manhã trouxe a friagem da garoa que se deitou sobre a madrugada toda. Ainda no torpor do mundo do sono, dezenas de rostos e gestos dos mortos amigos e amados me cobriram, como o calor das cobertas ainda no aconchego do quarto. Lá fora o sol cintila timidamente no orvalho. Não vejo, apenas sei.

Olhos fechados me trouxeram, pouco a pouco, as lembranças daqueles que partiram e ficaram na memória. Sorrisos, gestos, momentos, saudades, sons, vislumbres de todo um passado disperso, pois que o tempo dissipa possíveis mágoas ou desentendimentos, essas coisas humanas... restando a luz de cada um, em flashes que somam-se ao que você se tornou.

A luz e a alegria dos que partiram, descansam como num porta retratos. Deveria mesmo ser esse um dia de festa, como nos tempos pagãos! Relembrar o bem que cada um deles deixou de herança. E matar a saudade...

Que vivam os mortos queridos!

Ada Gasparini
#coisasdeada

31 de out. de 2019

Carlos Drummond de Andrade: Mãos dadas

Mãos Dadas
Carlos Drummond de Andrade
(em seu 117º aniversario)

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.






20 de nov. de 2017

Zacimba Gaba – Princesa, Escrava e Guerreira



Zacimba Gaba – Princesa, Escrava e Guerreira
Por Maciel de Aguiar*

Há cerca de trezentos anos, o fazendeiro português José Trancoso arrematava, no Porto da Aldeia de São Matheus, na Capitania do Espírito Santo, “com cerca de mais de uma dúzia de negros d’Angola”, uma “negrinha de feições finas e olhos esfumaçantes”, sem imaginar, por certo, que estava levando para a sua fazenda – uma sesmaria de terras que ultrapassava o rio Mucuri, “há umas seis léguas para o norte” – a “negrinha” que iria ser uma das precursoras nas lutas dos negros contra o regime de escravidão na região.

A Aldeia de São Matheus, já nessa época, atraía os habitantes das mais variadas regiões do Brasil, distantes ou não de seu porto de “próspero comércio de escravos d’Angola”, e, como tal, seus limites ao norte, com a Capitania de Porto Seguro, iam até o rio Mucuri – maior acidente geográfico entre as duas Capitanias. Constantemente, fazendeiros ultrapassavam esses limites estendendo seus domínios até o Vale do Cricaré, cujo rio de águas mansas e esverdeadas se enrosca como uma serpente nas encostas de barrancas que produzem uma liga que o gentio transformava em tinta para adornos, tendo, mais tarde, o colonizador utilizando-a, também, na pintura de suas casas.

Nesse universo selvagem e fascinante, estabelecer-se como um próspero fazendeiro requeria demonstração de poder e prosperidade, o que só seria medido com “um razoável número de escravos”. O então fazendeiro José Trancoso, já devidamente incorporado aos seus novos domínios, visto que havia ultrapassado suas fronteiras sem ser molestado, “abriu uma picada de umas vinte mil braças às margens do rio Itaúnas”, onde assentou sua fazenda com cerca de uma centena de escravos e aquela negrinha que todos os pretos chamavam de princesa”.

Era o ano de 1690, e, há muito, na Serra da Barriga, nas Alagoas, os negros haviam se aquilombado, transformando o que era conhecido como Quilombo dos Palmares no mais importante centro de resistência contra o sistema escravocrata. As lutas para a sua destruição eram, sistematicamente, vencidas pelos negros amotinados, o que fizera outros focos de resistência pelo interior do país.

Durante anos, a “negrinha de feições finas e olhos esfumaçantes” foi levada – por sua natureza rebelde – aos mais humilhantes e infames castigos, tendo sido surrada no Largo do Chafariz, no Porto, “com outros escravos recapturados”, provavelmente, por não aceitar, de bons modos, atender aos desejos do fazendeiro. Contava o mestre Balduíno Antônio dos Santos, que “certa feita ela foi arrastada da senzala até à Casa Grande, onde foi interrogada pelo senhor”, que queria saber se era verdade “o boato que se espalhava por todos os lugares” de que ela “era uma princesa”. 

Durante “muitos dias e muitas noites os negros choravam” ao ouvirem seus gritos, entrecortados pelos “baques da chibata no corpo”. O mestre pára por um instante, compenetrado, como a buscar reminiscências tão antigas quanto sua vida centenária, “meu avô contava que ela foi desonrada pelo senhor, depois de confessar sua verdadeira identidade: Zacimba Gaba, princesa da nação de Cabinda…”

Encrava na baía do mesmo nome, na costa oeste da África, em Angola, Cabinda teve sua população quase que dizimada, com seus homens e jovens aprisionados e mandados como escravos para o Brasil, durante duzentos anos. O fazendeiro, sabendo que os seus escravos, em grande maioria, eram oriundos de Angola, e que poderiam invadir a Casa Grande para libertá-la, passou os avisar que, se alguma coisa acontecesse a ele ou à sua família, “Zacimba seria morta”. Na senzala os negros tramavam uma invasão à Casa Grande, mas com a ameaça do fazendeiro “logo recuaram”. Segundo o mestre Balduíno, “era mais importante a vida da princesa do que a dele e de sua família”.

No decorrer do tempo, a jovem princesa, aprisionada na Casa Grande, sob ameaça permanente, castigos e sendo “violentada ora pelo fazendeiro ora pelo capataz”, crescia e tomava coragem para enfrentar, “sozinha, o senhor”. Havia ela proibido que os negros tentassem libertá-la e passou a elaborar planos “de fuga e de vingança”. Não obstante, longe dos negros, Zacimba “também sofria ao ouvir os lamentos de seu povo sendo cortado no chicote, amarrado no tronco e levado aos ferros”, durante os anos que se passaram. 

As noites na Casa Grande, onde era prisioneira, fizeram de Zacimba uma mulher madura, que aprendera a resistir aos mais degradantes castigos, e “vez por outra, os negros na senzala pareciam hipnotizados com o seu canto chamando a proteção dos deuses africanos, na claridade da lua grande”. Ali ela preparava sua alma de guerreira que, mais cedo ou mais tarde, iria pôr à prova. Tinha de ter tranquilidade para vencer as dificuldades e preparar seu corpo para as lutas, impedindo, ainda, que os escravos cometessem atos que pudessem colocar em risco suas vidas.

Uma das armas mais poderosas e silenciosas que os escravos usavam contra os senhores ou feitores que lhes impunham castigos desumanos e humilhantes era o envenenamento. Na grande maioria dos casos, isso era feito em pequenas doses ao longo dos anos. Registrou José Alípio Goulart, em seu Da Fuga ao Suicídio (Editora Conquista, Rio, 1972), que “o famoso quebranto – lassidão, desânimo, astenia – que, com muita frequência, verificava-se entre os senhores de escravos, era resultante, na maioria dos casos, da administração de venenos em pequenas doses”.

Um dos venenos mais utilizados na região de São Mateus e Conceição da Barra era extraído da cabeça da “Preguiçosa”, uma cobra temida pelo seu veneno mortal, característica do Vale do Cricaré. Pegavam a cobra, preferencialmente viva, e cortavam-lhe a cabeça, sem extrair o veneno. Em seguida, era a cabeça torrada e moída até produzir um pó “bem fino” que “era misturado no dicumê do sinhô até sua morte”, dizia o mestre Balduíno, afirmando que “num havia dotô que desse jeito no desinfeliz…”

Nas fazendas, as senzalas preparavam, às escondidas, o “pó para amansar o sinhô”, que chegava até à Casa Grande pelas mucamas, onde era administrado “com muito cuidado e zelo”, em pequenas doses. Se o senhor desconfiasse e mandasse um escravo “cumê da sua comida, o escravo podia engolir sem medo, pois o veneno só fazia efeito se fosse dado muitas vezes”. O senhor, com isso, jamais poderia imaginar que estava sendo envenenado, mas, ao longo do tempo, era fatal: “berrava feito boi, sangrando pelo nariz, ouvidos, unhas e pé de cabelo”, disse Balduíno.

E foi, provavelmente, através de um desses métodos que Zacimba preparou a sua liberdade, esperando longo tempo para livrar-se dos constantes castigos e humilhações que se seguiram enquanto administrava o veneno “em pequenas doses”, esperando, pacientemente, a hora mortal.

Uma noite, o fazendeiro passou a gritar, o que para seus familiares e feitores era uma surpresa, para os negros, na senzala, era o sinal que se esperava. Zacimba, por certo, sabia que ele já não tinha salvação e logo procurou acalmar os escravos. “Ninguém poderia imaginar que o sinhô tava envenenado”. Enquanto isso, na Casa Grande, procuravam-se todos os antídotos que pudessem fazer parar as dores do fazendeiro, mas nada era possível. “Quando o sangue começou a brotar foi dado o alarme: Zé Trancoso tá envenenado”. Era a hora da reação dos negros. “O rebuliço dos homens de confiança do fazendeiro já era grande”. Todos já sabiam que ele havia sido envenenado e que “era só esperar a hora para jogar o corpo na cova”, garantiu o mestre Balduíno.

Quando a notícia parecia haver vencido a todos, “o homem já tava estrebuchando”, foi a hora decisiva para Zacimba livrar-se da prisão e, já de “facão em punho”, comandou a revolta dos escravos contra todos os anos de humilhação e sofrimento. No ânimo dos capatazes, em defesa da família do fazendeiro, prevalecia a fidelidade ao senhor, no dos escravos a vingança e a libertação na luta que explodiu “cruel e sangrenta”.

A Casa Grande foi “lavada por um banho de sangue” e, segundo o mestre Balduíno, “enquanto a família do fazendeiro foi livrada não sobrou um homem de confiança do sinhô para contar a história”. Em seguida, Zacimba “caiu na mata virgem, levando os negros libertos”, para a formação de um quilombo às margens do Riacho Doce, nas proximidades do que é hoje o povoado da Vila de Itaúnas, em Conceição da Barra, no extremo norte do Espírito Santo. O Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas, já havia sido destruído em 1695, e muitos negros fugiram para o sul, provavelmente trazidos pelas notícias da existência de outros quilombos que se formavam, dentre eles o de Zacimba Gaba, de onde a princesa comandava as lutas que se travaram pela libertação de seu povo.

Durante aproximadamente uma década, ela transformou o local em área segura, onde os negros, principalmente os oriundos d’Angola, fugidos ou libertados das grandes fazendas, podiam viver em liberdade. Como princesa e guerreira, Zacimba sabia que seu povo estava sendo trazido dentro dos navios para ser vendido como escravo no Brasil e, nas imediações, para a beira da praia, onde existe um platô de uns vinte metros de elevação acima do nível do mar, ela montou com seus súditos um estratégico ponto de observação das embarcações que navegavam pela costa, entre as capitanias de Porto Seguro e do Espírito Santo, levando escravos acorrentados em longas viagens de quarenta a cinquenta dias, quando muitos não resistiam aos maus tratos e morriam de fome, frio e banzo. Esses negros, em sua maioria angolanos, eram vendidos nos portos, como no da Aldeia de São Matheus, aos fazendeiros. A estratégia de Zacimba era a de libertá-los ainda em alto mar, antes de chegar ao porto e serem levados para as fazendas, o que dificultaria as ações.

Conta a lenda em torno de sua existência que “dentro de pequenas canoas”, Zacimba e seus guerreiros se aproximavam das embarcações negreiras, sempre à noite, e tomavam-nas de assalto, dominando seus tripulantes e libertando os negros, que vinham “principalmente d’Angola”. Muitos não conseguiam chegar com vida em terra firme, outros eram encontrados mortos e atados às correntes, mas as suas ações culminavam “sempre com muitos negros que ganhavam a liberdade depois de muitos dias de viagens sem saber para onde eram levados”.

Era, realmente, muito grande, desde meados do século XVII, o comércio marítimo de escravos trazidos de Angola, na África, tanto que, já em 1624, quando os holandeses dominaram a Bahia, detento os navios negreiros no porto, o registro feito pela Companhia das Índias Ocidentais, de Joannes de Laet, relacionou, como bens apreendidos, vários navios carregados de escravos: “Huma barca com 250 negros de Angola, hum navio de Angola com 300 negros, hum de Angola com 200 negros, hum navio de Angola com 280 negros, hum navio de Angola com 450 negros, hum navio de Angola com 230 negros”. Portanto, todos os negros que estavam nos navios no porto da Bahia eram oriundos de Angola, na África.

No decorrer dos anos, cada vez mais os negociantes e escravos preferiam os negros d’Angola, vendo o seu mercado “promissor e lucrativo”, até que, aproximadamente em 1700, surgiram ataques aos navios negreiros “comandados por uma negra com uma tiara na cabeça, a quem eles atribuíram ser uma princesa d’Angola”, registrou Manoel Antônio de Oliveira.

Mesmo com essa ameaça as viagens da Bahia para o sul eram compensadoras para os comerciantes de escravos em virtude de seus objetivos de lucros, cada vez maiores, serem alcançados. A partir dessa preferência pelos angolanos, não seria tão impossível – dentre os milhares de escravos oriundos daquela região africana – encontrar-se uma princesa. E ela, consciente de sua condição e importância, sentiu-se no dever de adotar uma postura contrária aos castigos e àquela preferência por escravos de sua nação. O fato dos negros angolanos serem os preferidos pelo sistema escravocrata brasileiro fez com que Antonil, em 1711, registrasse: “Os negros que vêm para o Brasil são Ardas, Minas, Congos, de S. Tomé, d’Angola, Cabo Verde e alguns Moçambiques que vêm nas naus da Índia.

Os Ardas e os Minas são robustos. Os de Cabo Verde e S. Tomé são mais fracos. Os d’Angola, criados em Loanda, são os mais capazes de aprender ofícios mecânicos que os das outras partes nomeadas”. Há ainda a registrar que as regiões onde os comerciantes e mercadores de escravos mais desenvolviam suas atividades de lucro eram compreendidas entre os portos da Bahia e o porto de Santos, destacando-se entre esses o Porto de São Matheus.

H. Watjen, em O Domínio Holandês no Brasil – tradução de P.C. Uchôa Cavalcanti -, registrou, ainda, ser “o negro da Guiné, rixoso, cabeçudo, preguiçoso, difícil de se acostumar à obediência e no trabalho, enquanto os oriundos d’Angola revelavam muita disposição para o trabalho e podiam, facilmente, ser ensinados pelos escravos antigos, gozando de particular preferência”.

Por estar na rota do grande comércio de escravos, o Porto de São Matheus não podia ser desprezado, sobretudo pelo grande número de fazendeiros oriundos da Bahia, “representantes de famílias tradicionais que assentaram vivência na Aldeia de São Matheus em função de sua prosperidade”. Tal fato fez com que, em 15 de setembro de 1764, o então Ouvidor da Capitania de Porto Seguro, Tomé Couseiro de Abreu, transpondo os limites com a Capitania do Espírito Santo, elevasse a Aldeia de São Matheus à categoria de Vila, com o nome de Villa Nova de São Matheus, baseando-se na Carta Régia de 14 de abril de 1755, pela qual o Capitão do Pará, Francisco Xavier de Mendonça, instalou a Capitania de São José do Rio Negro. Tal gesto do Ouvidor foi levado por forte predomínio baiano na Aldeia em função da “fertilidade das terras, da abundância da madeira de lei e do grande contingente de escravos adquiridos no porto da Bahia e trazidos de barcos para a Aldeia de São Matheus”.

O início do século XVIII encontrou uma expressiva resistência por parte dos negros, que se rebelaram em toda a parte do território. Zacimba, que havia, “ainda mocinha”, cruzado o Atlântico naquelas precárias embarcações que traziam até 500 escravos, sabia muito bem o que devia representar a liberdade para o seu povo, “depois de quarenta dias e quarenta noites enfrentando chuva, fome e frio nos porões superlotados de gentes numa viagem sem volta”, afirmava Balduíno Antônio dos Santos.

Zacimba passou a intensificar os planos de saque aos navios e embarcações que traziam escravos para o Porto de São Matheus: “Libertar os negros, ainda nos navios, antes de chegar em terra firme”, lembrava o Mestre Balduíno, “era uma idéia arriscada, mas que podia trazer vitória”. Somente alguém com muita coragem seria capaz de tamanha ousadia e, durante várias ações bem sucedidas, Zacimba “teve a certeza de que estava no caminho certo”. Atacava sempre à noite, de surpresa, sem que fosse possível à tripulação oferecer resistência.

E aquela princesa, que parecia frágil, incorporava, definitivamente, a figura de grande guerreira, e de facão em punho “surgia na lâmina d’água, como a andar pelas ondas do mar”, comandando as pequenas canoas e atacando as embarcações negreiras pelos flancos, “como um raio na escuridão” lembrava o mestre.

Temendo os prejuízos, os mercadores de escravos, por muito tempo, evitaram o comércio de transporte próximo à costa nessa região, “principalmente entre as embocaduras do Mucuri e do Cricaré”, onde Zacimba e seus guerreiros haviam saqueado inúmeras embarcações e libertado muitos negros que vinham acorrentados para serem vendidos. Conta a lenda colhida da boca do povo, de invejável memória, que, “certa feita, surgiram no mar, próximo à embocadura do rio Itaúnas, duas embarcações com sinais visíveis de que traziam escravos”, provavelmente para serem vendidos no Porto de São Matheus. “Há umas mil braças do mar adentro, avistavam-se as velas dos navios”.

Prepararam-se as canoas e esperou-se o anoitecer para irem ao encontro do inimigo. Os músculos salientes e fortes dos negros brilhavam ao reflexo do clarão da lua grande, “dessas noites pra gente ficar olhando as estrelas”, e de suas mãos ágeis os remos faziam as pequenas canoas flutuarem no ritmo acelerado, mar adentro. A rapidez dos movimentos e a destreza dos guerreiros davam a entender, que, mais uma vez, sairiam vitoriosos.

Zacimba, princesa libertária, à frente daquela legião de negros livres, buscava a liberdade para os que foram arrancados de sua terra distante. “Cercaram o primeiro navio, que não ofereceu resistência”, subiram pelos flancos, mas foram surpreendidos pela tripulação “fortemente armada, de mosquetão e clavinote, tendo ainda, o outro navio a atacar os que estavam no mar. Foi luta encarniçada, de que só o mar é testemunha…”

Assim, Zacimba Gaba, princesa guerreira d’Angola, que soube esperar toda a sua juventude para livrar-se do seu senhor, liderou seu povo contra as atrocidades a que era submetido. Possuída por uma coragem singular, terminou a vida de lutas, heroicamente, “como um raio na escuridão”.

A última vez em que vi o mestre Balduíno Antônio dos Santos o encontrei sentado numa balaustrada do Mercado, no Largo do Chafariz, no Sítio Histórico do Porto de São Mateus. Falava compassadamente, sempre com os olhos marejando em direção à curva do rio, como a esperar alguém que nunca vinha. Curioso, fui logo puxando conversa: “Só sei estórias de negros, lutas contra os capitães-do-mato, na mata virgem, estórias de gente valente que adubou a terra pra um dia nossos netos andar em liberdade…”, replicou ele.

Os lábios trêmulos iam deixando fluir com precisão o que os seus antepassados contaram no longe dos anos que se passaram. – E Zacimba Gaba?, perguntei-lhe.

O mestre Balduíno olhou-me nos olhos, com os seus belos olhos negros marejando, e por uma eternidade hipnotizou-me com suas palavras: – “Morreu na luta, encarniçada, enfrentando o estanho com o seu facão, como deveria ser…”

As mais longas horas de aventura se passaram, depois, pigarreou e cuspiu no canto do pilar. Olhou a tarde sobre o Vale do Cricaré, de um vermelho fechado que manchava de sangue o firmamento.

Já era hora de ir embora e, com passos lentos, arrastando as alpercatas de couro batido, atravessou o Largo do Chafariz, respondeu ao pedido de bênção de algumas “moças-damas” que se debruçavam nas janelas dos velhos sobradões e ganhou o Beco dos Meninos, perdendo-se entre as casas de antanho. Acompanhei-o com os olhos até perdê-lo de vista, naquele final de tarde de dezembro de 1968.

Voltei ao Porto por várias vezes naquele resto de ano e nunca mais o vi, mas ficaram na memória da infância perdida suas últimas palavras, como uma premonição:

- “Se Deus tivesse me dado outra filha mulher, colocaria seu nome. Nome bonito, de princesa, que lutou por nossa liberdade e foi levada de volta pra África, pelas ondas da imensidão do mar: Zacimba, Zacimba Gaba…”, repetiu.
Autor: Maciel de Aguiar

Dedicação do Autor: À Zacimba Gabriela Maciel Bastos de Aguiar minha filha, para que possa conhecer um pouco de coragem e da história de lutas de uma princesa que lhe emprestou o nome

Fonte: http://www.morrodomoreno.com.br/

21 de jun. de 2017

Machado de Assis: Circulo vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
“Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
“Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela”
Mas a lua, fitando o sol com azedume:
“Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume”!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
Pesa-me esta brilhante auréola de nume…
Enfara-me esta luz e desmedida umbela…
Por que não nasci eu um simples vagalume?”…
(Homenagem a Machado de Assis, Nascido em 21/6/1839)

3 de mai. de 2017

Belchior, importante é o bem que se faz!

Entre tantas lindas homenagens e depoimentos prestados a Belchior neste dia de sua morte (30 de abril de 2017), há aquelas que maldizem e buscam os defeitos e erros cometidos por ele. Li artigos aterradores, mas ninguém melhor que Belchior para saber que o mundo humano é assim mesmo, cruel sempre, na vida e na morte. E diante da frase "errar é humano" eu registro a você, Belchior, que o importante é o bem que se faz. Obrigada por tanta poesia linda e significativa! Fica bem! 

23 de dez. de 2016

Auta de Souza: Se tenho que partir
























Se tenho que partir, que seja
enquanto minha alma
responde à bondade e à beleza,
desperta da letargia,
e, em ânsias de viver,
mergulha direto na magia.


Que eu parta, então,
quando a visão da rosa
é êxtase,
perfume e cor,
repouso da mente,
fonte de calor.

Pois que eu vá
enquanto sofro ainda
com a dor dos que sofrem
e rio com o riso das crianças,
o prazer das mães
na atualização de esperanças.

Se tenho mesmo que ir,
que seja agora
quando a árvore me fala
de sombra e amizade,
das cores do outono,
de paz e felicidade.

Se tenho que dormir,
que durma deslumbrada
com o nascer e o pôr-do-sol,
derramando no mar
um esplendor de prata e ouro
vai-e-vem das ondas a brilhar.

Possa eu repousar
sob um manto de estrelas e luar,
ouvindo a voz do vento,
os murmúrios da floresta,
a melodia dos riachos e cascatas,
mergulhada em plena festa.

Que durma feliz,
ambos realizados
nos braços do meu amor,
nos laços de seu carinho
que se revela suave,
macio como arminho.

Se tenho que partir,
seja, então, de regresso
à casa de meu Pai,
deixando o sonho pela realidade,
uma realidade de sonho,
o mundo perfeito da verdade.

Auta de Souza (Macaíba, 12 de setembro de 1876 — Natal, 7 de fevereiro de 1901) foi uma poetisa brasileira da segunda geração romântica (ultrarromântica, byroniana ou Mal do Século), autora de Horto. Escrevia poemas românticos com alguma influência simbolista, e de alto valor estético. Segundo Luís da Câmara Cascudo, é "a maior poetisa mística do Brasil".

Auta de Souza: Quebrando os Laços

Fugir à mágoa terrena
E ao sonho, que faz sofrer,
Deixar o mundo sem pena
Será morrer?

Fugir neste anseio infindo
A treva do anoitecer,
Buscar a aurora sorrindo
Será morrer?

E ao grito que a dor arranca
E o coração faz tremer,
Voar uma pomba branca
Será morrer?

Lá vai a pomba voando
Livre, através dos espaços...
Sacode as asas cantando:
"Quebrei meus laços!"

Aqui, n'amplidão liberta,
Quem pode deter-me os passos?
Deixei a prisão deserta ,
"Quebrei meus laços!"

Jesus, este vôo infindo
Há de amparar-me nos braços
Enquanto direi sorrindo:
"Quebrei meus laços!"

Poema "Fio Partido" de Auta de Souza

Auta de Souza (Macaíba, 12 de setembro de 1876 — Natal, 7 de fevereiro de 1901) foi uma poetisa brasileira da segunda geração romântica (ultrarromântica, byroniana ou Mal do Século), autora de Horto. Escrevia poemas românticos com alguma influência simbolista, e de alto valor estético. Segundo Luís da Câmara Cascudo, é "a maior poetisa mística do Brasil".

***

Hoje morreu porque quis, 
Kelly. 
Uma Menina flor que queria viver, 
mas a vida a violentou 
de uma tal forma que 
a única chance foi sair dela 
sem se despedir...
Vida, você podia ser 
mais condescendente com seus iguais...

Ada

11 de mai. de 2014

Mãe e filha e Mãe...

Mãe, em ciclos...

Mãe bordou muitas camisinhas de cambraia
e fraldinhas antes mesmo deu nascer. 
Depois lavou-as, e me banhou e me amou. 
Me fez nascer e me deu de mamar. 
Me educou, orientou, repreendeu. 
Me fez o que eu sou. 

Não importa se há afinidades, 
se segui meu caminho,
em mapas que ela não desenhou 
se trilhei estradas,
diferentes da que ela sonhou 
se a decepcionei...
ela sempre esteve alí, no seu posto magistral.

Não importa se ela também me decepcionou, 
ou criticou... 
se foi rígida, ou desatenciosa...
Se nos magoamos.
Nada disso importa: 
há um amor intrínseco entre mães e filhos, 
e nada pode separá-los. 
Quem sabe, temporariamente, 
enquanto passarinhos alçando seus vôos.. 

Há um ditado que diz: 
"o bom filho a casa torna".
Deveria existir outro:
"Mãe estará sempre de braços abertos".

Dias vazios esses, quando filhos saem do ninho negando suas mães...

Ada, 11/5/2014


Filha e Mãe


Mãe e filha

30 de mar. de 2014

Fragmentos

Ela estava na praia! Feliz! Que danada! Eu não sei se acredito nessas coisas de "alma", mas as coincidências me perturbam. Elenice demorou 15 dias para perceber que tinha ido embora daqui... daí, viu que um monte de gente ainda não sabia disso. Mas como avisar? No sábado (14) as conchinhas de minha coleção me "atraíram" e fui bulir com elas, fotografei, escrevi sobre essas lembranças e óbvio... Elenice me veio com força, pois tenho lindas conchas que ela me deu. E foi ao enviar uma mensagem para ela dizendo-lhe da minha saudade, que soube de sua partida... Agora ela repousa nessas conchas. Linda e barulhenta com sua gargalhada, quebrando as ondas do mar!" (Ada, 19/4/2013)

29 de mar. de 2014

Amigo é coisa prá se guardar

"Bom dia querida! 
Saudades.
 Acabei de postar no blog sobre conchinhas catadas na praia...
Óbvio, lembrei-me de você, pois na minha coleção de conchas, as suas ocupam lugar de destaque! Não só porque as conchas são lindésimas, mas porque vieram recheadas de carinho...daquele recheios que se lambem os dedos. 
Relendo o que escrevi há tempos, vi que em março completou 3 anos sem o Tompson, e espero continues tocando em frente que a vida não é mole não!
Beijos à suas filhas e a toda família, espero que sua mãe esteja firme e forte, mesmo dando-lhe trabalhos. Mande noticias! (teria tanto a te contar....)." (Ada, em 18 de abril/2013)
***
"Não sabemos como responder aos e-mails... este momento está sendo muito difícil para nós. Informamos o falecimento da Elenice. Foi no sábado, dia 30/03/2013. Ela estava muito feliz e na praia." (As filhas, Maiti e Inai em 19/4/2013).

Elenice agora repousa dentro de uma concha,
linda e barulhenta com sua gargalhada...

8 de mar. de 2014

8 de março de 2014 é sempre bom lembrar, comemorar, lutar...



No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como, redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.

A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano.


Porém, somente no ano de 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de março passaria a ser o "Dia Internacional da Mulher", em homenagem as mulheres que morreram na fábrica em 1857. Mas somente no ano de 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela ONU (Organização das Nações Unidas).


12 de out. de 2013

No dia da criança, a esta hora, exatamente, há uma criança na rua



Há uma criança na rua


A esta hora, exatamente, há uma criança na rua.
É dever do homem proteger o que cresce,
Cuidar para que não tenha uma infância dispersa pelas ruas,

Evitar que naufrague seu coração de barco,
Sua enorme vontade de pão e chocolate,
Caminhar por seus países de bandidos e tesouros

Pondo-lhe a esperança no lugar da fome.
De outro modo é inútil ensaiar na terra a alegria e o canto,
De outro modo é absurdo porque de nada vale se há uma criança na rua.

Importam duas maneiras de conceber o mundo:
Uma, ser alguém como as outras pessoas ou
Arrancar cegamente dos demais a bolsa.

E a outra, um destino de salvar-se com todos,
Comprometer a vida até o último náufrago.
Como se pode dormir de noite se há uma criança na rua?

Exatamente agora, se chove nas cidades,
Se desce o nevoeiro gelado no ar
E o vento não é nenhuma canção nas janelas,

Não deve andar o mundo com o amor descalço
Levando um diário como uma asa na mão.
Trepando nos trens, provocando-nos o riso,

Golpeando-nos como um anjo de asa cansada,
Não deve andar a vida, recém nascida, já lutando,
A meninice arriscada a um pequeno ganho,

Porque então as mãos são dois fardos inúteis
E o coração, apenas uma má palavra.
Eles esqueceram que há uma criança na rua,

Que há milhões de crianças que vivem na rua
E uma multidão de crianças que cresce nas ruas.
A esta hora, exatamente, há uma criança crescendo.

Eu a vejo apertando seu coração pequeno,
Olhando para todos com seus olhos de fantasia,
Percorrem e olham para o homem rico,

Um relâmpago forte cruza seu olhar,
Porque ninguém protege essa vida que cresce
E o amor se perdeu como uma criança na rua.


17 de ago. de 2013

Carlos Drummond de Andrade: Um poeta mineiro na praia de Copacabana


Hoje, há 111 anos do nascimento e 26 da morte de Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987), vale muito a pena relembrar o poeta, que vive grandes aventuras, agora em forma de estátua, sentado na praia de Copacabana. Diversas crônicas, contos e poesias poderia ele escrever sobre esse seu cotidiano! Histórias de violência, agressão, vandalismos, de amor, de solidão, tantas auroras e crepúsculos diante desse mar de água e gente. Diante de tantos gestos, esse vídeo, não deixa de ser essa tentativa...

11 de ago. de 2013

Para um pai -------- Diogo Nogueira: Espelho



Espelho



Nascido no subúrbio nos melhores dias
Com votos da família de vida feliz
Andar e pilotar um pássaro de aço
Sonhava ao fim do dia ao me descer cansaço
Com as fardas mais bonitas desse meu país
O pai de anel no dedo e dedo na viola
Sorria e parecia mesmo ser feliz


Eh, vida boa
Quanto tempo faz
Que felicidade!


E que vontade de tocar viola de verdade
E de fazer canções como as que fez meu pai 


Num dia de tristeza me faltou o velho
E falta lhe confesso que ainda hoje faz
E me abracei na bola e pensei ser um dia
Um craque da pelota ao me tornar rapaz
Um dia chutei mal e machuquei o dedo
E sem ter mais o velho pra tirar o medo
Foi mais uma vontade que ficou pra trás

Eh, vida à toa
Vai no tempo vai
E eu sem ter maldade


Na inocência de criança de tão pouca idade
Troquei de mal com Deus por me levar meu pai 


E assim crescendo eu fui me criando sozinho
Aprendendo na rua, na escola e no lar
Um dia eu me tornei o bambambã da esquina
Em toda brincadeira, em briga, em namorar
Até que um dia eu tive que largar o estudo
E trabalhar na rua sustentando tudo
Assim sem perceber eu era adulto já


Eh, vida voa
Vai no tempo, vai
Ai, mas que saudade


Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai


Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar.


(Diogo Nogueira)

11 de jul. de 2013

Coisas de Ada, Coisas do Paraná

Minha mãe e eu: Nasci nessa casinha de madeira, no bairro Bacacheri, Curitiba - PR

No dia 11 de julho em 1954 nasci sob uma baixa temperatura. A geada cobria as ruas do Bacacheri, em Curitiba, com cristais de gelo. O banho teve que ser sobre o fogão a lenha aceso e, mesmo assim, minha coloração mudou para roxo. Acho que sofri bastante nesse dia, pois não gosto do frio até hoje. 

Curitiba tinha aquelas casinhas de madeira, e foi numa delas que nasci e morei até os meus três anos de idade.  Minha mãe queria me dar o nome de Helena, mas nesse dia a primeira mulher paraquedista – a brasileira de origem italiana,  Ada Rogato – pulava de paraquedas no aeroporto do Bacacheri, bem ali pertinho de casa. Meu pai italiano e apaixonado por aviação, estava lá assistindo ao espetáculo enquanto a parteira me fazia nascer. Ficou tão entusiasmado com a ousadia daquela mulher que quando chegou em casa e se deparou comigo, me deu o seu nome. 

Penso que a coragem e ousadia que tenho foram herdadas desses nomes: O primeiro, Eliana, foi uma homenagem que meu pai fez a uma sobrinha de Veneza. Sua irmã Alice teve as gêmeas Nadia e Eliana, em 1949.  Nádia, morreu imediatamente e Eliana, sobreviveu até seus quatro anos de idade, e em 1953 faleceu com nefrose, doença incurável naqueles tempos. 

Foi assim que comecei minha vida, com a força dos nomes que me deram ... 

Ada Rogato

Em plena década de 30, a aviação engatinhava no mundo! No Brasil, uma jovem mulher pilotava avião, e saltava de paraquedas! Era Ada Rogato!  
Nascida em São Paulo em Dezembro de 1920, Ada Rogato foi uma pioneira da aviação brasileira. Em 1936 com apenas 15 anos de idade, Ada é a terceira brasileira a conseguir brevê. Também nesta época destacou-se por ser a primeira piloto de planador. Em 1941 é a primeira mulher a obter o certificado de paraquedista.

No início da década de 1940 é contratada pelo Instituto biológico e é convocada para ser piloto dos testes experimentais de aviação agrícola. Assim, conseguiu horas de vôo suficientes para ser a terceira pessoa a tirar brevê de piloto civil internacional pela FAI, com aviões das categorias A e B.

Em 1950 voou por 11.691 quilômetros durante 16 horas transpondo a Cordilheira dos Andes. Já em 1951 fez seu famoso vôo pelas três Américas, percorrendo 51.064 quilômetros em 326 horas. O ponto de partida foi a Terra do Fogo e o fim do trajeto no Alasca; entre esse dois pontos Ada visitou cerca de 28 países.

Além dos feitos citados, Ada continuou realizando atividades ligadas à aviação: superou recordes como percorrer grandes distâncias em tempos cada vez menores, atingir regiões de difícil acesso como o aeroporto da Bolívia ( o mais alto do mundo) e foi a primeira mulher a fazer um vôo solo pela Amazônia sem qualquer meio de comunicação. Antes de falecer em 1986, Ada fez parte da Fundação Santos Dumont passando pelos cargos de conselheira, secretária e presidente, e posteriormente assumindo o cargo de diretora do Museu da Aeronáutica da própria fundação.



Pinheiro do Paraná, ou Curi

Araucária ou pinheiro-brasileiro ou pinheiro-do-paraná é também chamada pelo nome de origem indígena, curi. Tornou-se, não por acaso, símbolo do estado do Paraná, e deu o nome a sua capital, Curitiba. Em tupi: curi = pinheiros e tyba = abundância. Curitiba quer dizer, portanto, abundância de pinheiros, pinhais. A origem dos pinheiros remonta há mais de 200 milhões de anos atrás!

A araucária, apesar de popular, não é conhecida completamente pela ciência. Diversos estudos vêm sendo feitos recentemente para entender melhor a  ecologia e biologia desta árvore.  Ela corre risco de extinção.

Pinhões: olha que espetáculo!

Nos meses de maio e junho, no tardar do outono do hemisfério sul, as pinhas estouram ao sol do meio-dia, possivelmente como reflexo da dilatação após a manhã fria. Com o estouro estes pinhões espalham-se num raio de aproximadamente cinqüenta metros a partir da planta mãe!  Mas, apesar de engenhosa, esta não é a principal forma de disseminação da planta.

O homem e os animais que se alimentam desse pinhão também atuam no transporte e disseminação das sementes. Os serelepes costumam armazenar os pinhões, enterrando grande quantidade de sementes no solo. Essas sementes acabam sendo esquecidas e assim geram novas árvores. Apesar da crença de que a gralha-azul dissemina o pinhão, na verdade são os pequenos roedores terrestres os principais vetores. Mais recentemente aviões fizeram essa disseminação pelas florestas.

4 de jul. de 2013

O tempo passa e a gente nem vê

Dia 4 de julho. 
Há dezenove anos meu pai se foi.
Mas nunca alguém vai prá sempre,
Sempre deixa seu ar 
para alguém respirar.

(Ada, 4/7/2013)

Silvio Gasparini (30/5/1925 - 4/7/1994)

29 de abr. de 2013

Helena Kolody, poetiza da minha terrinha


Seus pais foram imigrantes ucranianos que se conheceram no Brasil. Helena nasceu em Cruz Machado (PR) em 12 de outubro de 1912 e passou a infância na cidade de Rio Negro (PR) onde fez o curso primário. Estudou piano, pintura e, aos doze anos, fez seus primeiros versos.

Seu primeiro poema publicado foi A Lágrima, aos 16 anos de idade:

A lágrima 

Óh! lágrima cristalina 
Tão salgada e pequenina 
Quanta dor tu redimes 
Mesmo feita de amarguras 
Ès tãu sublime tão pura 
Que só virtudes exprimes. 

Aos 20 anos, Helena iniciou a carreira de professora do Ensino Médio e inspetora de escola pública. Lecionou no Instituto de Educação de Curitiba por 23 anos. Helena Kolody, segundo o que consta em seu livro Viagem no Espelho, foi professora da Escola de Professores da cidade de Jacarezinho, onde lecionou por vários anos.

Seu primeiro livro, publicado em 1941, foi Paisagem Interior, dedicado a seu pai, Miguel Kolody, que faleceu dois meses antes da publicação. Já nesta obra de estréia constavam três haikais, algo raro à época: 



arco-íris no céu
está sorrindo o menino
que há pouco chorou

***
puseste a gaiola
suspensa dum ramo em flor
num dia de sol

***
os olhos do amado
esqueceram-se nos teus
perdidos em sonho


Helena se tornou uma das poetisas mais importantes do Paraná, e praticava principalmente o haicai, que é uma forma poética de origem japonesa, cuja característica é a concisão, ou seja, a arte de dizer o máximo com o mínimo. Foi a primeira mulher a publicar haicais no Brasil, em 1941. Estava presente em seu projeto poético esta busca, como disse mais tarde, "da síntese para traduzir o pensamento".

Morreu em Curitiba, em 15 de fevereiro de 2004, com 92 anos de idade!

Obras

Paisagem Interior (1941)
Música Submersa (1945)
A Sombra no Rio (1951)
Poesias Completas (1962)
Vida Breve (1965)
Era Espacial e Trilha Sonora (1966)
Antologia Poética (1967)
Tempo (1970)
Correnteza (1977)
Infinito Presente (1980)
Poesias Escolhidas (1983)
Sempre Palavra (1985)
Poesia Mínima (1986)
Viagem no Espelho (1988)
Ontem, Agora (1991)
Reika (1993)
Sempre Poesia (1994) - antologia poética
Caixinha de Música (1996)
Luz Infinita (1997)
Sinfonia da Vida (1997) - antologia poética com depoimentos da poetisa
Helena Kolody por Helena Kolody (1997) CD gravado para a coleção Poesia Falada
Poemas do Amor Impossível (2002) - antologia poética
Memórias de Nhá Mariquinha (2002) - obra em prosa

23 de abr. de 2013

Olga Benário, você está presente

Olga Benário Prestes
(
Munique, 12 de fevereiro de 1908 — Bernburg, 23 de abril de 1942) 


Hoje 23 de abril de 2013, completa 71 anos da morte de Olga Benário Prestes. O crime de Olga era ser comunista e judia. Foi entregue por Getúlio Vargas a Hitler que a manteve num campo de concentração e extermínio nazista até sua morte numa câmara de gás. Importante trazer vivo e na memória episódios de um período da história tão recente. Olga Benário! Você está presente!


Leia também: Última carta de Olga Benário Prestes