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11 de mai. de 2013

Abismal




Abismal


Meus olhos estão olhando
De muito longe, de muito longe,
Das infinitas distâncias
Dos abismos interiores.
Meus olhos estão a olhar do extremo longínquo
Para você que está diante de mim.
Se eu estendesse a mão, tocaria a sua face.

(Helena Kolody)


3 de mai. de 2013

Helena Kolody: Sonhar


Sonhar
Helena Kolody

Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.

Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.

É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.

Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.

30 de abr. de 2013

Haicais de Helena Kolody, ou poesia mínima

Helena Kolody, além dos Haicais em que a métrica originalmente é 5/7/5, escrevia também o que chamou de “poesia mínima”. Afinal, “o poeta nasce no poema, inventa-se em palavras”. Ela foi a primeira mulher a escrever haicais... fiz uma colheita destas flores:

um sabiá cantou
longe dançou o arvoredo
choveram saudades

***
em líquidos caules
irisadas flores d'água
cintilam ao sol

***
nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz

***
os olhos do amado
esqueceram-se nos teus
Perdidos em sonho

***
puseste a gaiola
suspensa dum ramo em flor
num dia de sol

***
da estátua de areia
nada restará
depois da maré cheia

***
a morte desgoverna a vida
Hoje sou mais velha
que meu pai

***
depois será sempre agora
viajarei pelas galáxias
universo afora

***
bate breve o gongo
na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo

***
a flecha de sol
pinta estrelas na vidraça
despede-se o dia

***
luar nos cabelos
constelações na memória
orvalho no olhar

***
em líquidos caules
irisadas flores d'água
cintilam ao sol

***
nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz

***
tão longa a jornada
e a gente cai de repente
no abismo do nada

***
para quem viaja
ao encontro do sol
é sempre madrugada

***
dormem as papoulas
a lua sonha no céu
vigiam os grilos

***
em seus caramujos
os tristes sonham silêncios
que ausência os habita?

***
festa das lanternas
os ipês se iluminaram
de globos cor de ouro

***
vôo solitário
na fímbria da noite
em busca do pouso distante

***
corrida no parque
o menino inválido
aplaude os atletas

***
trêmula gota de orvalho
presa na teia de aranha
rebrilhando como estrela

***
damos nomes aos astros
qual será nosso nome
nas estrelas distantes?

***
manhã nas flores do cardo
leve poeira de orvalho
manhã no deserto

***
deus dá a todos uma estrela
uns fazem da estrela um sol
outros nem conseguem vê-la

***
pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos

***
às vezes soluço por mim
como se pranteia alguém
que há muito deixou de existir

***
luar nos cabelos
constelações na memória
orvalho no olhar

***
nas flores do cardo
leve poeira de orvalho
manhã no deserto

***
arco-íris no céu
está sorrindo o menino
que há pouco chorou

***
não ando na rua
ando no mundo da lua
falando às estrelas

***
que importa a nuvem no horizonte
chuva de amanhã?
hoje o sol inunda o meu dia

***
quem é essa que
me olha de tão longe
com olhos que foram meus?

(Helena Kolody)

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29 de abr. de 2013

Helena Kolody, poetiza da minha terrinha


Seus pais foram imigrantes ucranianos que se conheceram no Brasil. Helena nasceu em Cruz Machado (PR) em 12 de outubro de 1912 e passou a infância na cidade de Rio Negro (PR) onde fez o curso primário. Estudou piano, pintura e, aos doze anos, fez seus primeiros versos.

Seu primeiro poema publicado foi A Lágrima, aos 16 anos de idade:

A lágrima 

Óh! lágrima cristalina 
Tão salgada e pequenina 
Quanta dor tu redimes 
Mesmo feita de amarguras 
Ès tãu sublime tão pura 
Que só virtudes exprimes. 

Aos 20 anos, Helena iniciou a carreira de professora do Ensino Médio e inspetora de escola pública. Lecionou no Instituto de Educação de Curitiba por 23 anos. Helena Kolody, segundo o que consta em seu livro Viagem no Espelho, foi professora da Escola de Professores da cidade de Jacarezinho, onde lecionou por vários anos.

Seu primeiro livro, publicado em 1941, foi Paisagem Interior, dedicado a seu pai, Miguel Kolody, que faleceu dois meses antes da publicação. Já nesta obra de estréia constavam três haikais, algo raro à época: 



arco-íris no céu
está sorrindo o menino
que há pouco chorou

***
puseste a gaiola
suspensa dum ramo em flor
num dia de sol

***
os olhos do amado
esqueceram-se nos teus
perdidos em sonho


Helena se tornou uma das poetisas mais importantes do Paraná, e praticava principalmente o haicai, que é uma forma poética de origem japonesa, cuja característica é a concisão, ou seja, a arte de dizer o máximo com o mínimo. Foi a primeira mulher a publicar haicais no Brasil, em 1941. Estava presente em seu projeto poético esta busca, como disse mais tarde, "da síntese para traduzir o pensamento".

Morreu em Curitiba, em 15 de fevereiro de 2004, com 92 anos de idade!

Obras

Paisagem Interior (1941)
Música Submersa (1945)
A Sombra no Rio (1951)
Poesias Completas (1962)
Vida Breve (1965)
Era Espacial e Trilha Sonora (1966)
Antologia Poética (1967)
Tempo (1970)
Correnteza (1977)
Infinito Presente (1980)
Poesias Escolhidas (1983)
Sempre Palavra (1985)
Poesia Mínima (1986)
Viagem no Espelho (1988)
Ontem, Agora (1991)
Reika (1993)
Sempre Poesia (1994) - antologia poética
Caixinha de Música (1996)
Luz Infinita (1997)
Sinfonia da Vida (1997) - antologia poética com depoimentos da poetisa
Helena Kolody por Helena Kolody (1997) CD gravado para a coleção Poesia Falada
Poemas do Amor Impossível (2002) - antologia poética
Memórias de Nhá Mariquinha (2002) - obra em prosa

27 de abr. de 2013