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28 de nov. de 2019

3 de nov. de 2019

João Paulo Naves Fernandes : Pátria perdida

Estou procurando uma pátria
perdida em tantos cantos!
Uma pátria desfigurada,
subtraída a cores,
abstrata.
Dela
dilapidaram
os galardões
que lhe conferiam
sobrevivência:
seus patrimônios,
suas riquezas,
e por fim,
o povo.
Entoam
gritos
frenéticos
e zombam
de ti
Tiradentes!
Gritam
mas escarnecem
tua pureza
Frei Caneca
nas balas
de um pelotão.
Há uma pátria
perdida
que necessita
ser
reencontrada.
A pátria
dos pequenos
inocentes
nas praças,
que não sabem
nem lamentam,
apenas brincam.
A pátria
dos pratos
de comida
partilhada,
da solidariedade.
Pátria
da terra
distribuída,
de todos.
Pátria
das riquezas
incomensuráveis
guardadas
nos mares
no subsolo.
Pátria
dos destinos
traçados
na teia
da democracia.
Esta pátria
está desaparecida!
Procura-se uma pátria,
verdadeiramente amada
Quem a achar
traga-a 
à Paulista
à Sé.
Proclamem-na, novamente:
em novos brados
novos heróis.
Está é a pátria
a ser encontrada.

João Paulo Naves Fernandes
03/08/2019

20 de nov. de 2017

Ao Sr Willian Waack, branco com nome de gringo

Senhor Willian Waack

Coisa de preto é levantar cedo para trabalhar
Esmagar o medo de não mais voltar.
Quando o entardecer me permitir mais um dia findar.
E com tudo isso ainda SER.

Coisa de preto é ter que estudar dobrado
Conhecer cada linha de uma constituição
Para não ser atropelado, burlado, ameaçado ou trapaceado.
E com tudo isso ainda SER.

Coisa de preto é viajar no porão
Ter identidade largada e cuspida no chão
E ter que aguentar o assédio do patrão.
E com tudo isso ainda SER.

Coisa de preto é levar chicotada
Por vezes ficar na senzala amarrada
É ter que deixar sua roupa engomada
E com tudo isso ainda SER.

Coisa de preto é cortar a cana, moer o café, limpar o chão.
É ter que trabalhar dobrado,
Ter o sono furtado, o sonho distanciado.
E com tudo isso ainda SER.

Coisa de preto é ralar para se graduar
Conhecer, entender, argumentar.
Tolerar pessoas como o senhor
Que estão colocando esse país no penhor.

Senhor William Waack
Em toda história do Brasil
Nenhum preto cruzou o Planalto para ser empossado.
No entanto estamos vendo esse país ser roubado, saqueado e leiloado.
Me responda uma coisa senhor William.
Toda essa prática ilícita que meu país vem sofrendo desde a colonização, isso é coisa de branco?

Caso sua resposta seja sim, eu e muitos outros pretos trabalhamos, estudamos e pagamos honestamente nossos impostos.
Sendo assim continuaremos a fazer pretices.

Sem mais.
Geisa Rodrigues

11 de out. de 2017

Crianças abusadas

Foto: Crianças desviando de corpos na Favela da Rocinha - RJ

Ei! MBL!
Ei! Puritanos patrulheiros da moral!
Ei! Tradição Família e Propriedade!
Há crianças sendo abusadas!

Abusadas no seu direito à infância
No seu direito a sorrir, a dormir em paz
A viver sem medo, sem susto
Com pavor de tanto capataz!

Corra protestar e não esqueça de levar
A Bandeira do Seu Brasil!
Só que prepare-se para a melhor parte
aqui não é museu, e nem uma obra de arte!

Ada


24 de mai. de 2017

O gueto - por Fernando Brito

João Agripino da Costa Doria Junior
Faltam, é verdade, as cruzes de ferro, as gamadas, os dois relâmpagos à gola, a Luger, os quepes ornados pela águia.

Nem é Varsóvia, é São Paulo.

Mas da imagem emana o gueto, os restos miseráveis dos quais vivem os párias, os anti-sociais, as desgraças da Cidade Linda.

Nem mesmo na foto aparecem, de tão à margem que estão. Só os despojos de lixo de suas vidas no lixo aparecem, já com os garis prontos a remove-los e leva-los para tão longe quanto eles serão levados.

Do olhar frio e impiedoso, dardejam os raios da purificação: que os levem a Auschwitz, Sobibór, Treblinka, Lublin…

Lá, vão aprender que Arbeit match frei, o trabalho liberta, e vão andar como zumbis esfregando o chão das empresas que colaboram com a eugenia, esquálidos, olhando para o chão, recolhendo-se aos cantos para tremer sua doença.

A sociedade bem-posta – inclusive alguns que têm os avós e bisavós com os braços marcados a ferro em brasa – o aplaudirá. É muito, até, para estes animais, que nos emporcalhavam e assustavam.

Afinal, o que define a humanidade é a produtividade – como nas vacas leiteiras, a quantidade de leite que produzem – e não a vaga semelhança que tem com meu corpo bem cuidado, nem a que seus trapos possam ter com meu cashmere.

Tampouco ser humano é sublimar sua condição e sentir um desejo imenso, incontido, de aproximar-se do que parece ser semelhante, mesmo que brusco e arisco pelo que o mundo e a droga o tornaram, como avaro e cobiçoso fizeram aos judeus, o vagar, sempre tangidos, por dois milênios pelo mundo.

Quem manda não terem prazer senão o delírio e a nóia, em lugar do iate, do jato, dos luxos?

São Paulo precisa de seu lebensraum, de seu espaço vital, onde não cabem almas que não sejam arianas, mesmo que de pele tostada, feito aquele clown que arranjaram.

Nele, só podem ser admitidos os craques se estes fizerem brilhar os Jardins.

Não os que comem restos com as mãos, ávidos, famintos.

Só os que têm o Caviar Lifestyle.

19 de mai. de 2015

Ariano Suassuna

“Em arte, a gente não quer astúcias intelectuais, mas vida pulsando, embora sem saber como pulsa e por que pulsa.” 

(Rachel de Queiróz, na introdução do livro “A pedra do reino”, de Ariano Suassuna)


19 de abr. de 2013

Oswald de Andrade: Erro de português

Erro de português

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio

Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

(Oswald de Andrade)

Índia Kaiapó
Índia Kaiapó
*

Dia do índio, 19 de abril, foi criado pelo presidente Getúlio Vargas através do decreto-lei 5540 de 1943, e relembra o dia, em 1940, no qual várias lideranças indígenas do continente resolveram participar do Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México. Eles haviam boicotado os dias iniciais do evento, temendo que suas reivindicações não fossem ouvidas pelos "homens brancos". Durante este congresso foi criado o Instituto Indigenista Interamericano, também sediado no México, que tem como função zelar pelos direitos dos indígenas na América. O Brasil não aderiu imediatamente ao instituto, mas após a intervenção do Marechal Rondon apresentou sua adesão e instituiu o Dia do Índio no dia 19 de abril. Foi decretado pela ONU o "DIa Panamericano dos povos indígenas". Os índios (os que sobraram) permanecem lutando pelos seus direitos mínimos...

14 de abr. de 2013

Ananás me lembra coisa da pré-história

Ananás bracteatus, uma bromélia brasileira
Ananás ou Abacaxi anão, ornamental #coisasdeada

Algumas coisas na natureza me lembram eras dinossáuricas, pré-históricas, que surgiram há cerca de 220 milhões de anos. Elefantes, tartarugas, jacarés, castanheiras, e o Ananás bracteatus! Acho fantástico! O Ananás é uma bromeliácea brasileira, perene, de beleza rara e exótica, o nosso conhecido abacaxi. 



Essa espécie da foto, é um ananás de pequeno porte, anão, cerca de 5 cm, com uma haste longa. Não serve para comer. Gosta de sol, calor e pouca água. Espinhosas, suas folhas lembram cactus. Pode ser plantado em vaso e serve para ornamentar o jardim. 


Quando era criança, e ia fazer feira com a mãe, sempre pegava uma coroa, como é chamada a folha dos abacaxis (por isso fruta-rei) que os feirantes cortavam e amontoavam embaixo da barraca. Brincava de casinha com ela, minha imaginação a transformava em um "papagaio", sim, aquela ave que "dá o pé loro"! 

Mas desde criança, não posso comer abacaxi de jeito nenhum, nem no sorvete, ou na salada de frutas, recheios de bolo, mousses, ou em pratos das ceias de natal... só o caldinho dele nos alimentos é suficiente para me provocar fortes dores no estômago, daquelas de contorcer.

O termo abacaxi é, com forte probabilidade, oriundo do tupi "ibacati", (ibá, ‘fruto’, cati, ‘recender ou cheirar fortemente’). A origem do abacaxi, a mais provável, é a região amazônica. 

Ganhei essa belezura de um vizinho que cultiva diversas espécies de plantas em seu quintal. Papo vai, papo vem, eis uma mudinha, grata surpresa deste domingo! Obrigada Sr. Álvaro! Apesar de ser um abacaxi, esse não vou precisar nem comer, nem descascar...

(Ada, 14/4/2013)


6 de ago. de 2012

Rock Rural com Sá e Guarabira

Fomos, amigos e eu, ao show de Sá e Guarabira - sem o Rodrix que faleceu em 2009 - no teatro Adamastor, sexta-feira passada e nos divertimos com uma voltinha ao passado. Não era tão fã de rock rural nos anos 70, mas nos 80, curti muito o ritmo e a viola que os dois sabem tocar bem demais. 

Mais recentemente apurei meu gosto com a viola, estilo Almir Sater, música com raízes no interior e na cidade, um desenvolvimento daquele mesmo rock rural que haviam criado enquanto trio. Nos anos 80 eles marcaram o Brasil com uma verdadeira enxurrada de sucessos, como Sobradinho, Espanhola, e as músicas feitas para a novela Roque Santeiro, Dona e Verdades e Mentiras.

Ao vivo são muito simpáticos. Minha amiga comentou que gosta da voz do Sá, mas a do Guarabira é muito suave e muito me agrada. Ele cantou "Me faça um favor" que me fez prestar atenção e ouvir a música de outro jeito... nos tocou, né Elaine?

Me Faça Um Favor by Sá, Rodrix & Guarabyra; on Grooveshark  


Me faça um favor
Sá, Rodrix e Guarabyra 

 Quero que você me faça um favor 
já que a gente nao vai mais se encontrar 
cante uma cançao que fale de amor 
e seja bem facil de se guardar 
meu amor, o que eu sou 
todo mundo vê 
me perdi, 
me esqueci dentro do seu mundo 
procurando a vida com você 

Mesmo que as pessoas lembrem de nós 
mesmo que eu me lembre dessa canção 
não vai haver nada pra recordar 
nada que valeu, 
que houve de bom 
meu jardim, 
seu quintal 
sempre a mesma flor 
hoje não, 
cada um dentro do seu mundo 
navegando contra a solidão


Mais.. 
http://www.mpbnet.com.br/musicos/sa.rodrix.guarabyra/

19 de jun. de 2012

História para contar aos netos

Trem da EFA (1960)
“Na paisagem, só vacas malhadas em preto e branco...”, dizia a cartinha que eu enviava para a prima de Cosmorama, quando as férias chegavam ao fim e de volta em casa a saudade batia. Essa paisagem que restou na lembrança, permeava pelas onze horas de viagem no trem da antiga EFA, a Estrada de Ferro Araraquara. Esperava ansiosamente as férias para poder andar nesse trem. Partíamos bem cedinho da Estação da Luz. Os bancos giravam e podiam ficar um de frente para o outro e essa era a primeira providência que meu pai tomava, então a família podia ficar em convescote durante a viagem toda. Eram bancos enormes que davam até para deitar e dormir. Mas ficar sentada só mesmo quando a canseira batia ou não fazia alguma amizade no banco ao lado. A ordem era perambular por todos os vagões e curtir o lugar mais emocionante de se ficar: a junção entre dois vagões. Ligados por uma “sanfona” flexível fazia o balanço ficar mais intenso, desafiante. Dalí, se podia sentir o vento no rosto e ouvir o paque-páque-pá ritmado nos trilhos, sentir na pele a onda verde do mato ao longo e ao longe, assustar-se na escuridão dentro do túnel. Quesitos fundamentais. As vacas e cavalos e os grandes montes de cupim, feito legos, ou quebra-cabeças, eram brinquedos sempre iguais, e sempre diferentes. Incansável olhar o tabuleiro de capim e árvores e açudes. Na hora do almoço, o restaurante! Mágico sentar ali e almoçar olhando pela janela. A comida tinha sabor especial. Fome de novidades. O tempo não pára. O tempo parou! As estações ferroviárias, arquiteturas que parecem cenário de filme, me faziam pensar que pessoas não cabiam ali, sempre com seus tijolinhos e telhas luzindo vermelhas, e as plaquinhas com o nome do lugar, lembravam casinhas de bonecas. Crianças gritando e acenando das casas à beira dos trilhos riam e tudo era alegre. Ficava feliz. O trem apitava nalguma curva e o carrinho de refrigerantes e gibis, passava na hora do lanche com aquele seu vendedor uniformizado tão imponente. Enfim, chegando à estação da cidade de Cosmorama, onde meus avós viveram e criaram seus dez filhos, a charrete já estava a postos para nos levar até a cidade, percorrendo ainda três quiilômetros de terras e cheiros indescritíveis. Essa história é perfeita para eu contar aos meus netos [que venham!] e compete perfeitamente com qualquer conto de fadas. (Ada 19/6/2012) 
Em 1986, a estação já estava abandonada. A estação, ainda longe do centro, fica do outro lado da rodovia Euclides da Cunha. Está em 2009 habitada por uma família que a conserva.
Em 1986, a estação já estava abandonada. A estação, ainda longe do centro, fica do outro lado da rodovia Euclides da Cunha. Está em 2009 habitada por uma família que a conserva.
Continua nos próximos capítulos:

Cosmorama, a cidadezinha.

A Igreja Matriz e a missa.

O footing na praça da matriz depois da missa.

No circo das crianças, o ingresso era palito de fósforo.

Eu cantava Celi Campelo pelos alto-falantes da cidade.

No bailinho do Clube era ideal para namoricar.

Tomar leite quente tirado na hora.

Comer pamonhas feitas no quintal.

Ganhei uma boneca nova!

Aprendi a fazer pontinhos de crochê.

Não gostava quando embebedavam o peru na véspera do natal.
 
CURIOSIDADES:

HISTORICO DA LINHA: A Estrada de Ferro de Araraquara (EFA) foi fundada em 1896, tendo sido o primeiro trecho aberto ao tráfego em 1898. Em 1912, já com problemas financeiros, a linha-tronco chegou a São José do Rio Preto. Somente em 1933, depois de ter sido estatizada em 1919, a linha foi prolongada até Mirassol, e em 1941 começou a avançar mais rapidamente, chegando a Presidente Vargas em 1952, seu ponto final à beira do rio Paraná. Em 1955, completou-se a ampliação da bitola do tronco para 1,60m, totalmente pronta no início dos anos 60. Em 1971 a empresa foi englobada pela Fepasa. Trens de passageiros, nos últimos anos somente até São José do Rio Preto, circularam até março de 2001, quando foram suprimidos. A estação de Cosmorama", segundo a Folha da Manhã, 24/9/1941 seria aberta em 1943 e há quase três quilômetros a sudoeste da sede do então distrito. Durante a guerra, em 1943, a EFA continuava a avançar sua linha, então ainda métrica: "Tiveram prosseguimento os serviços de prolongamento até Porto Presidente Vargas. A ponta dos trilhos, a 31 de dezembro (de 1943), alcançava Mirassol.

Disse um habitante da cidade:

“Costumava roçar mato numa fazenda de Cosmorama, ali perto da linha, lá pelos anos 1950 e 1960. O trem era o nosso relógio. A estação ficava fora da cidade - ainda fica - eu me lembro que o local tinha uma estaçãozinha e duas casinhas de turma" (Gonçalo, motorista de táxi em São Paulo, nov/99).

Em 1986, a estação já estava abandonada. A estação, ainda longe do centro, fica do outro lado da rodovia Euclides da Cunha. Está em 2009 habitada por uma família que a conserva. Em sua frente há uma praça bem cuidada e moradores locais jogando conversa fora mansamente.

(Fontes: Antonio Ravagnani; Rodrigo Cabredo; Gonçalo -; Hermes Y. Hinuy; Rafael Correa; IOESP: A Vida Administrativa de São Paulo em 1943, Fernando Costa, 1944; Fepasa: Relatório de Instalações Fixas, 1986; Guia Geral das Estradas de Ferro do Brasil, 1960; Mapa - acervo R. M. Giesbrecht)
http://www.estacoesferroviarias.com.br/c/cosmorama.htm