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11 de mar. de 2012

Poetas que não conseguiram viver

Na manhã de 11 de fevereiro de 1963, durante um dos piores invernos ingleses já registrados, a poetisa americana Sylvia Plath (1932 - 1963) serviu leite para seus dois filhos, Frieda (3 anos) e Nicholas (1 ano), quebrou a vidraça da janela para garantir a ventilação que salvaria a vida das crianças e trancou, vedando cuidadosamente, a porta do quarto. Após estas providências, foi até a cozinha e abriu a válvula de gás, colocando sua cabeça dentro do forno, não era a primeira vez que ela tentava o suicido, mas desta vez foi bem sucedida. Sylvia Plath tinha apenas 31 anos.
A poetisa e tradutora brasileira, carioca Ana Cristina Cesar (1952-1983) desenvolveu um de seus melhores trabalhos ao traduzir as poesias de Sylvia Plath e o exemplo acima não deixa dúvidas quanto à qualidade da tradução. Praticamente vinte anos após a morte de Sylvia Plath, no dia 29 de outubro de 1983, Ana Cristina Cesar conseguiu chegar ao mesmo objetivo, na segunda e última tentativa, cometeu suicídio atirando-se pela janela do apartamento dos pais, num edifício da rua Tonelero, em Copacabana. Ela tinha apenas 31 anos.
Virginia Woolf (Londres 1882-1941) foi uma escritora, ensaísta e editora britânica, conhecida como uma das mais proeminentes figuras do modernismo. Após um colapso nervoso Virginia suicidou-se. Ela vestiu um casaco, encheu seus bolsos com pedras e entrou no Rio Ouse, afogando-se. Seu corpo só foi encontrado no dia 18 de abril. Ela tinha 41 anos.
A grega Safo ou  Psappha (como a ela assinava no dialeto eólico) a maior poetisa lírica da antiguidade é, provavelmente, também a primeira mulher a fazer poesia importante na história da cultura ocidental. Nasceu na ilha grega de Lesbos, por volta do ano de 612 a.C. Alguns a têm imaginado de uma beleza escultórica exuberante. Outros, como não muito bonita.  E contavam que havia se suicidado pulando de um precipício na ilha de Leucas, apaixonada pelo marinheiro Faonte.
Florbela Espanca (Portugal, 1894-1930) demonstra o desejo de morrer claramente expresso na sua obra, no modo como aborda constantemente o tema da morte, quase que parecendo persegui-la. Seria a consumação de uma fuga, fuga a um amor, fuga à vida e aos sofrimentos que lhe traz. Além disso, seria uma saída fiel aos preceitos românticos. Em dois de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas.” Às duas horas do dia 8 de dezembro – no dia do seu aniversário - Florbela D’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal. Algumas décadas depois seus restos mortais são transportados para Vila Viçosa, “… a terra alentejana a que entranhadamente quero”.
Vladimir Maiakóvski, (Geórgia, 1893 -1930)  o poeta da revolução russa. Em 14 de abril de 1930, em Moscou, depois de lhe terem negado um visto para viajar ao exterior, apaixonado pela esposa de seu editor e trucidado pelos críticos literários, Maiakóvski suicidou-se com um tiro. Contudo, nesse curto tempo de vida, ele nos concedeu uma obra mágica e, em si, excepcional! Tinha 37 anos.

Ingrid Jonker se matou afogada aos 32 anos. Nasceu em 19 de setembro de 1933 numa cidade perto de Kimberley na África do Sul e após o falecimento de sua mãe foi residir na cidade do Cabo com seu pai e terceira esposa e filhos. A vida da poetisa foi marcada pela difícil relação com o pai, Abraham Jonker que não reconhecia o talento literário da filha e a rejeitava. A tensão entre eles era tão grande que num de seus discursos, chegou a dizer que ela não era sua filha. Ingrid Jonker começou a escrever poemas aos seis anos e aos dezesseis se correspondia com o poeta sul-africano, o poeta sul-africano DJ Opperman que foi uma grande influência para Ingrid. Seu primeiro livro de poesia em Afrikaans intitulado “Depois do Verão” foi escrito antes dos treze anos. O pai de Ingrid era membro do Partido Nacional do Parlamento, e um dos responsáveis pela manutenção do Apartheid – censurava publicações, arte e entretenimento. Ingrid lutava contra o governo segregacionista, o que estimulava o descontentamento do pai para com ela. “A Criança que foi Assassinada pelos Soldados de Nyanga” é um poema político famoso que denuncia o apartheid. A rejeição do pai e as angústias internas da escritora a levaram ao suicídio na praia de Three Anchor Bay, na cidade do Cabo, na noite de 19 Julho de 1965, aos 32 anos, ela se afogou no mar. Ao ouvir a notícia de sua morte, seu pai disse mais o menos assim: "Não estou preocupado, podem devolvê-la ao mar."
Alejandra Pizarnick, nascida em Buenos Aires em 1936, era filha de imigrantes judeus russos. Publicou seu primeiro livro de poesia, La Tierra Más Ajena, em 1955, um ano depois de entrar na Universidade de Buenos Aires, na área de filosofia e letras, curso que não concluiu. Depois, também estudou pintura. Devido a suas contínuas depressões e tentativas de suicídio (em 1970 e 1972), ficou meio reclusa nesse período. Em 1972, permaneceu cinco meses internada numa clínica psiquiátrica. Em 25 setembro, ela saiu da clínica para passar o fim de semana em casa e tomou uma superdose do sedativo seconal sódico. Tinha 36 anos.

29 de nov. de 2011

Flush de Virginia Woolf confirma a tradição inglesa do "pedigree"


Capa do livro em sua 1ª edição em 1933


Lendo Flush, memórias de um cão, de Virginia Woolf, é possível confirmar que na Inglaterra o pedigree é levado a sério e que o Kennel Club criou uma jurisdição para as raças de cães de tal monta, que a “criação” de novos cães, com novos padrões de pelagens, estatura, comportamento – que acho execrável - e que abominam os pobres cães que não nascem com o perfil inventado, por capricho, pela aristocracia inglesa desde a era vitoriana até nossos dias. E Flush, sendo um legítimo representante da raça Cocker Spaniel, tem lá suas características definidas aristocraticamente mas que Virginia questiona durante o desenrolar da ficção, dando-lhe a chance de se tornar um democrático cão, amigo dos vira-latas. Dá-lhe liberdade e defende a igualdade, mesmo que “en passant”, o que chamou minha atenção tratando-se de uma mulher, de uma inglesa e do tempo em que viveu..

Assista também aos videos aqui no Blog, sobre pedigree: Os segredos do pedigree

Virginia escreve maviosamente e a gente vê as imagens brotando no ar das palavras, como fossem trepadeiras viçosas e abundantes e entrelaçadas e depois, musgo encrustrado nelas, enraizado, cheio de sentimentos ocultos e questionamentos que invadem nosso coração. Virgínia me conquistou. As ondas é o que pretendo ler em seguida. 

Flush foi inspirado nas cartas que os poetas ingleses Elizabeth Barret e Robert Browning trocaram entre si e onde Flush, um Cocker Spaniel dourado, aparece com grande ênfase como animal de estimação e grande companheiro da poetisa. Virgínia escreveu esse livro em 1933 para se divertir e descansar do extenuante romance “As ondas”, escrito no ápice de sua carreira, em 1931. Dez anos depois, ela se suicidou, aos 59 anos de idade, em 28 de março de 1941.

Recomendo a leitura! De alto nível!

Leia também: link da postagem anterior

No embalo, sugiro o comentário interessante sobre Flush em http://comendolivros.blogspot.com/2011/05/flush-memorias-de-um-cao.html

28 de nov. de 2011

Um texto preciso de Virgínia Woolf, em Flush memórias de um cão


Um trecho preciso de Virgínia Woolf, em Flush memórias de um cão, sobre o faro dos cães, descreve com tanta poesia e sensibilidade as andanças de seu personagem, como se ela própria fosse um cão, todos os cheiros possíveis invisíveis e visíveis em seus formatos e cores. Materializa-os tão poeticamente que temos a certeza de que “nenhuma única de suas infinitas sensações jamais foi submetida à deformidade das palavras”.

Compartilho esse trecho com você. Há de concordar que Virginia faz fluir música e letra na ponta de seus dedos. E também, que um cão é maravilhoso motivo para se fazer literatura.

“Mas Flush perambulava pelas ruas de Florença para apreciar a percepção dos cheiros. Traçava seu caminho através de ruas importantes e de vielas, através de praças e de becos, guiado pelo olfato. Ia traçando seu caminho de um perfume a outro; os ásperos, os amenos, os escuros, os dourados. Entrava e saía, subia e descia, onde se martela latão, onde se assam pães, onde as mulheres penteiam os cabelos, onde as gaiolas de passarinhos empilham-se pelas passagens, onde o vinho salpica manchas vermelho-escuras no calçamento; onde os cheiros de couro, de arreios e de alho se emanam, onde se batem roupas, onde folhas de parreira estremecem, onde homens acomodam-se para beber, cuspir e jogar dados – corria para dentro e para fora, sempre com o focinho grudado ao chão, bebendo da essência; ou com o focinho no ar, vibrando com o aroma. Dormia aqui neste retalho quente de sol – como o sol fazia as pedras cheirarem forte! -, procurava aquele túnel de sombra – como a sombra fazia exalar um cheiro acre da pedra! Devorava cachos inteiros de uvas maduras, principalmente por causa de seu cheiro púrpura; mastigava e cuspia qualquer resto endurecido de cabrito ou de macarrão que a dona da casa italiana tivesse jogado por cima do parapeito da sacada – cabrito e macarrão eram cheiros ásperos, cheiros vermelho-carmim. Seguia a doçura desfalecida do incenso dentro das reentrâncias violetas das catedrais escuras; e, fungando, tentava absorver o dourado do mausoléo com janelas de vitrais coloridos.”