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7 de jun. de 2015

Um pateozinho em flor

"Pateozinho acordou em festa! Flor de Maio acompanhada de dois botões a prometer flores e uma outra escondidinha flor, descoberta por coração alerta e atentos olhos, após a chuvarada num sábado de sol e reflexões...

O pateozinho nos faz recolher palavras, despejar sentimentos e pensamentos. É recompensa dos deuses, consolo no prazer de escrever. Ele se comunica com o Universo,  e as luas todas fazem dele sua morada, das madrugadas ao amanhecer dos dias. Conforto cotidiano, em silêncios, sorrisos e segredos..."

(Jussara Cony  e Zaira Catarelli sobre seu pateozinho em flor)

O pateozinho de Jussara está em conexão com meu quintalzinho pleno de flores avulsas e solitárias que trazem o mundo todo em cada pétala...

São Antúrios, Manacás, Azaleias, Gerânios, Margaridas, Camélias cheirosas, Ibiscus, Flor de Maio, Cravos, Rosas amarelas...


Ada, 6/6/15
























7 de mai. de 2015

Inverno

O frio está chegando.
Ele vem quieto e ameaçador.
O entardecer deste dia de outono
prenuncia esse frio
Com o silêncio de pássaros e besouros,
Com a ausência de cigarras e grilos,
Com a vaga lembrança dos latidos e sirenes.
O silêncio ensurdecedor das coisas todas,
É quebrado apenas pela correnteza gelada
Que vem lá do fim da rua,
Que vem lá dos fios e dos postes,
Que vem lá das nuvens cinzas e sóbrias.
O silêncio de folhas mortas de cor amarela,
É quebrado pela voz de alguém
Dando noticia na tevê que o frio está chegando...

(Ada, 7/5/15)











Fotos de Ada, Guarulhos-SP, neste outono de 2015

21 de mar. de 2014

Já o solstício de Outono

Minha vida é um rascunho rabiscado numa brochura. Até pensei que escrevia uma história legível e incrível, cheia de significado, para encadernar e deixar na prateleira da posteridade. Hoje, ouvindo os ventos do solstício de outono, sonando o sininho de lata, pendurado no beiral da casa, me inspirei em rever os capítulos e não consegui ler. Tantos rabiscos! Todos os dias uma tentativa de passar a limpo. Passar a limpo está difícil, não entendo a letra, perdi diversas partes do esboço de vida em páginas não localizadas. Tanta coisa escrita à lápis, outras coisas apagadas com borracha, tantas rabiscadas e ilegíveis. Quantas nem foram escritas! Quantas foram rasgadas...  Ímpetos de rasgar tudo dessa brochura, em mil pedaços, jogar no lixo, queimar, largar no vento do outono, que nada dali escrito tem serventia, unutilidade, serve para ninguém. Não consigo encontrar os capítulos escritos à tinta. Aqueles em que caprichei com minha letra redonda, escritos com tanto afeto. Talvez as tempestades tenham diluído essa tinta. Virou borrão. O papel está acabando, um dia paro de escrever essas bobagens todas. Vão ficar enfiados nalguma gaveta qualquer, esses garranchos ilegíveis, isso que minha vida é. 

(Ada, 21 de março de 2014)

Brochura:

n substantivo feminino
1     Rubrica: encadernação.
ato de brochar livros, opúsculos etc.; brochagem
2     Rubrica: encadernação.
tipo de acabamento em que o miolo do livro é coberto por uma capa mole, de papel ou cartolina, colada ao dorso
Ex.: livro em b.
3     Derivação: por metonímia. Rubrica: encadernação.
a capa propriamente dita, utilizada nesse sistema de encadernação
4     Derivação: por metonímia. Rubrica: bibliologia.
livro confeccionado dessa forma
Ex.: estantes repletas de brochuras
4.1  folheto ou opúsculo brochado
5     Regionalismo: Brasil. Uso: informal, tabuísmo.
condição ou estado de brocha ('impotente')
6     Derivação: por extensão de sentido. Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
falta de entusiasmo; desanimação, indiferença




3 de abr. de 2013

Amor embalado no freezer

Foto: Bento Arruda


















Outono chegou. 
A estação me faz introspectar. 
Gosto do outono. 
Junto com as folhas que cobrem o chão, 
abro as cobertas sobre meu corpo frio 
e vou caindo em mim, 
e sobre as peças que a vida vai pregando, 
algumas sem nexo, 
outras cheias de razão. 
Resta um tronco pelado, 
em pé, 
galhos em riste e cheios de seiva endurecida 
pelo inverno anunciado. 
Raízes enterradas em cimento trincado. 
Um coração barulhento 
sussurra no ouvido 
                            [uma toada forte] 
que é preciso esperar...
esperar...
esperar. 
Não sei se haverá esse tempo 
de esperar que meu amor desacelere 
dentro de mim. 
Amor deteriora pelo tempo? 
Vou colocá-lo 
               [o tempo e o amor] 
embalado no freezer, 
como se faz com o alimento que não vamos consumir. 
Vou guardá-lo num saco de supermercado, 
ecológico, 
que se diz auto-desmanchável, 
ou enrolado em papel alumínio, 
à vácuo. Protegido? 
O prazo de validade deste amor 
não vem estampado em lugar algum, 
será preciso esperar... 
esperar... 
esperar. 
Um teste de quanto dura, 
e de quanto é duro entender outros corações. 
O meu, anda estranhado, 
cantando canções em grego. 

(Ada, 3/4/2013)




* Andreas Grega é um cantor sueco, compositor e vocalista na banda Kungers. Grega estreou como artista solo no Outono de 2009, em janeiro 2010 lançou o álbum "Uma coisa de cada vez." Compôs um rapp que se tornou o mais popular do disco, um hip hop sueco.

19 de abr. de 2012

Na cidade amanhece - outono - a noite



Vento de outono golpeia
a cada esquina um rosto 
O meu, corado, já não pelo sol
fim de verão.

Arrepio de outono eriça 
cada pele a cada tarde. 
A cada braço um abraço forte.
Tarda já noite o sono 
o meu, não o das folhas 
tão mortas de sono, 
tão mortas de outono. 

Tudo vai ficando frio. 
Um cão enrolado em seu rabo 
atrapalha a passagem. 
Ninguém vê, ouve, crê. 

Na estação apita um trem,
sobe um vapor de café 
Envolvidos com aparelhos celulares 
ausentam-se de si.
Ninguém ri. 

Essa gente carregando agasalho 
que brota mofado da gaveta, 
do passado 
Meu cachecol de franja azul 
num céu azul de outono 
vai pendurado no pescoço. 

Na cidade amanhece a noite 
e anoitece a manhã 
Indefinida estação 
sem opinião 
ensolara e açoita 
até que finda e esbraveja.

Há friagem. 
Não fique outono! 
Só de passagem avisa que o inverno não perdoa!

(Ada 19/4/2012)



18 de jun. de 2011

Tarde fria e manhosa de outono



Nessa tarde fria e manhosa caminha lento o outono. Na madorra das horas, constato pela janela que as pipas estão de volta, flanando pelas nuvens, enquanto as paredes do mundo refletem luz amarela. Nas folhas musgo-amarelado [quase todas no chão], nas nuvens, nos meus olhos, tudo rebrilha. A Lua esqueceu-se de sumir e compete sua luz esmaecida com o amarelo morno e cítrico de sol reluzente nas paredes caiadas. Enquanto miniaturas de gente e carro movimentam-se pelas ladeiras, vislumbro da janela os sons do sábado serenarem meu coração adentro, meu céu acima. Risadas e canções ecoam, e ladram os cães cismados com o nada. Há choro de criança e roupas esquecidas no varal enquanto o ar cheira fogão de lenha. Pipas e urubus salpicam movimentos ritmados, e num céu de ventanias azuladas contagiam preguiças. O pássaro de peito amarelo mergulha em zigue-zague e deixa rastros de liberdade pelo céu. Tem bico adocicado de fruta de época, do conde e tangerina, ameixa e carambola. Há malemolência nas nuvens gordas, robustas de lembranças da infância, do tempo em que se fazia a sesta e não se perdia festa. O alto-falante da igrejinha de São José dos Homens Pretos anuncia a quermesse e as guloseimas de milho e amendoim reacendem outras misturas de gengibre e canela, sabores quentes, ultra coloridos, tão junhentos. São vapores invisíveis, que atiçam salivas de pipoca na manteiga. Quando [logo aí] o inverno chegar, mais uma vez, a saudade desse alegre e manhoso outono ficará retida, como fotografia, através dos tempos de minha curta vida, recontada e repetida no infinito das horas, nos livros de cabeceira, nas bocas dos poetas, nas palavras em mutação, nos pensamentos humanos. Perdurem vocês, sensações de outono! Voltem, para deleite dos futuros transeuntes da vida, que como eu, cá estou, de passagem e rapidamente, uma guardiã de memórias.


(Ada 18/06/2011)

30 de abr. de 2011

Tempo escuso



Os dias, meses passam.
As pessoas ficam por ai, 
Perambulando lembranças, 
Povoando pensamentos perdidos 
Em tarde de sol poente, 
Quente, laranja, na varanda. 
Meus amigos idos, 
Esquecidos, sumidos. 
Dou o ar da graça, sem graça 
Deixo um abraço, de aço 
Meu tempo escuso consome 
Alegria e ócio 
E levito entre ser e estar. 
As folhas balançam 
Por alí, caindo pelo outono 
E busco as palavras por aqui,
tenebroso inverno em minh'alma.

(Ada 30/4/2011)

27 de mai. de 2010

Folhas mortas de sono


Há folhas mortas de sono. 
É outono, 
então dormem pelas calçadas, 
pelos parques. 
Ao sabor dos ventos, 
sonham que têm asas. 
Sonham sonhos verdes, 
terras fecundas. 

Folhas!
Que nunca tenham 
pesadelos 
          [de árvore derrubada]. 

Que pisadas, 
transformem férteis as raízes. 
Que possam acordar 
todos os anos 
em brotos revigorados. 

Que despertas pela primavera, 
rebrilhem sóis e chuvas 
em sua doce seiva. 

Neste ciclo de vida, 
como as lagartas em borboleta, 
que as folhas adormecidas 
neste sono profundo, 
possam despertar 
e descobrir que a sua morte
fora apenas um pesadelo 
finito de outono.

(Ada 27/5/2010)

20 de abr. de 2010

Parei de respirar

Foto de Ada: Graffiti no Minhocão, abril de 2010

Parei de respirar. Hora de ir para casa me esconder do cansaço. Parei de respirar, quatro anos? Asma. Continuo tentando sobreviver à sanha desta cidade que segue desembestando golpes certeiros, ferindo por dentro e por fora, sem escrúpulos. Parei de respirar

Parei de respirar. Desço a ladeira remodelada pelo piche derretido e sinto cheiro de fogueira, de fogão a lenha. Os cheiros têm cada qual a sua alma. Oito e meia da noite. A pizzaria na esquina oposta solta fumaça e risos de véspera de feriado e tilinta brindes de chope gelado. Na de cá, é preciso desviar, amiudar os olhos, pois a noite obscura um monte de pano e papelão, onde pessoas sem eira nem beira, dormem e se aquecem com fogueira improvisada. Parei de respirar.
A ladeira parece mais íngreme que ontem. A consciência da desigualdade me esbofeteia sempre com mais veemência e deixa tudo aumentado, dolorido, mais difícil. Andar nas ruas da cidade é dar a cara à tapa. Parei de respirar.

Na ladeira, que ontem não era tão íngreme, pulo monturos, tropeço pedras soltas, pisoteio um chiclete mastigado, desvio de um escarro, descubro uma pena de pássaro, percebo folhas mortas pelo outono, chuto uma lata, corro de uma moto que passa o sinal. A cidade ainda está paralisada, a esta hora, assim, buzinando sua pressa. Parei de respirar.

Um motorista bateu no poste e morreu às três da tarde na zona leste e o efeito estica-se pela noite adentro e segue para a zona sul, passando por mim, nesta ladeira que é bem mais íngreme do que parecia ontem. Daqui a pouco ele [o infeliz] será enterrado e ninguém vai se lembrar de que a cidade parou por ele e que a luz acabou por ele e que a ambulância passou com ele, ensurdecendo-nos. Amanhã será outro, outro dia. Preciso respirar.

Ao pé da tal ladeira, hoje tão íngreme, nasceu um viaduto ofensivo que ostenta fuligem, esconde meninos drogados, sustenta rebeldia de árvore teimosa em suas frinchas, exibe pixações e grafittis e exala urina. Faço uma foto, registro um fato. Preciso ir para casa, me esconder desse cansaço. Preciso respirar.

Tento sobreviver à sanha desta cidade que segue desembestando golpes certeiros. E segue ferindo por dentro e por fora. No rádio anunciam animados as vendas de treze mil carros por dia. Preciso entrar numa farmácia, parei de respirar

Como me pareço com o velho do grafitti... Ele precisa respirar!

23 de abr. de 2009

Tempestade e fuga, desde a antiguidade

uol.noticias
Saindo às ruas hoje me deparei com um céu cinzazul-chumbo-pesado-opressor, refletido no retrovisor do carro. À frente, um céu claro e reflexos do ainda calor. Me senti ameaçada pela onda fria que vinha do sul, atrás de mim. 

Um antepassado longínquo aflorou, ele conhecia bem as intempéries, com elas teve que lutar para sobreviver todos esses milênios de evolução. Esse antepassado, de geração em geração, foi repassando o aprendizado e agora essa memória bole no meu estômago... 

Um arrepio roçou a espinha. A eletricidade trincava o céu atrás de mim, e choviam folhas de outono desesperadas pelo asfalto, concorrendo comigo o espaço adiante... e adiante fui seguindo com elas, sobre elas, além delas, e mais apressadamente a sensação de que precisava fugir do mau presságio que as tempestades sugerem. A sensação nítida de correr do inimigo era a claridão à frente e a escuridão atrás. Estava perdendo terreno. 

As árvores do caminho, açoitadas pela ventania, avisavam que o vento avançava à minha frente, ultrapassando-me. Incapazes de segurar suas folhas, já mortas pela estação, elas sucumbiam ao previsível aguaceiro. Em breve a escuridão me alcançaria. Me cobriria de noite fria. Não é medo, ou é medo. É uma precaução. É um cuidado. São lembranças de que morrem gentes, soterram-se em lama, afogam-se em rios, assolam-se casas... Quase perdi minha filha no terceiro mês de gravidez, porque descalça e molhada, tomei um forte choque dum raio que esturricou uma copada árvore "chapéu de sol", na praia, bem à minha frente. 

Mas hoje, cheguei sã e salva, com alguns pingos pingados me molhando as costas e tiritando de um baita frio pairado pela cidade. Saberei depois, quando sair da toca, se minha saga se justificou ou se foi tempestade em copo d´água. (Ada 23/4/2009)