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6 de jun. de 2013

Gatos e engatos

Aldemir Martins, Gato amarelo

Gatos e engatos



ADAmastor, meu gato possível.
Não gosta de que lhe toquem as patas
traseiras.
Comida na hora, autolimpante, intrigante.
Deitado na janela, entre dois lados, preguiçante!

Adoram enroscar-se sobre as nossas "patas traseiras".
Não temem a escuridão, como os humanos.
Não temem o sexo, como os pecadores.
Não choram a solidão como os artistas.
Amam-se, principalmente.
São curiosos desde o olhar.
São loucos por sofá.

Miam, miram, pulam, correm.
Comem, brincam, dormem.
São sãos.
Fazem.


(Marta Eugênia)

21 de abr. de 2013

Poema do Gato

Pintura de Louis Wains


Poema do Gato
(António Gedeão)

*

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge prá rua
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.

Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.

Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semicerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,
rosna, deliquescente,
abraça-me 
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

*

Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, conhecido pelo seu pseudônimo António Gedeão é poeta português, além de professor de química. Nascido em Lisboa. Faleceu em 1997.

28 de mar. de 2012

Sagwa, a Gatinha siamesa


Mudando os canais na TV, essa manhã, caí no canal Futura e me deparei  com um desenho animado chamado Sagwa, a Gatinha siamesa que foi baseado no livro infantil de mesmo nome escrito pela chinesa Amy Tan (1), e fiquei bem curiosa, primeiro pelos personagens felinos, segundo, para conhecer o livro e a escritora.

A história foi escrita pensando em crianças entre 5 a 8 anos de idade. O cenário é a antiga China e Sagwa a gatinha siamesa vive aventuras que apresentam as problemáticas próprias da idade:

Quem sou eu? Como faço para conviver com outras pessoas? O que significa ser honesto? Como posso defender aquilo em que acredito? Quais são minhas responsabilidades? O que significa estar de espírito aberto e tolerante? O que representa ganhar mais independência?

Há mais coisinhas interessantes no site de Sagwa. A escritora viveu nos EUA e escreveu esse livro infantil em 1994, mas o desenho passou em 40 episódios, também por lá, em 2001 e 2002. Depois passou em Portugal e agora no Brasil pela TV Futura em 2012.

Eu adoro desenhos animados, e esse da gatinha chamada Sagwa, me foi surpresa grata nessa quarta chuvosa, que daqui a pouco terei de enfrentar num transporte coletivo nada animado, e que posso até fazer uma analogia com o nome da gatinha, pois é uma Saga! 

O que encontrei sobre Amy Tan:  é uma escritora estado-unidense contemporânea (2006) filha de imigrantes chineses, natural da cidade de Oakland, Califórnia, Estados Unidos da América. Ela é autora de várias obras de ficção, de romances, de leitura infantil, com adaptações televisivas. O seu livro Joy Luck Club foi transformado em película. A versão em espanhol desta obra recebeu o título de "El Club de la Buena Estrella". Amy Tan fez parte de seus estudos na Suíça, em Montreux. Uma das características marcantes de seus escritos é a representação de sua perspectiva sino-americana, da chamada literatura étno-minoritária que aflorou nos Estados Unidos por volta da década dos anos oitenta, vindo a se estabelecer como uma nova categoria literária no mercado americano.



Mais gataria?


http://pbskids.org/sagwa/characters/sagwa/index.html


http://youtu.be/lpr63Z6eN7c

25 de jul. de 2011

Ferreira Gullar: "O gato curioso"



O Gato Curioso
(Ferreira Gullar, Um gato chamado Gatinho, 2000. Ilustrações de Angela Lago)

Era uma vez era uma vez
uma gato siamês.

Por ser muito engraçadinho,
é chamado de Gatinho.

Além de ser carinhoso,
ele é muito curioso.

Nada se pode fazer
que ele não deseje ver.

Se alguém mexe na estante,
está lá no mesmo instante.

Se vão consertar a pia,
está ele lá de vigia.

E o resultado é que quando
viu seu dono consertando

a tomada da parede,
meteu-se, com tanta sede,

a cheirar tudo que - nhoque!
levou um baita choque!

E pensa que ele aprendeu?
Mais fácil aprendia eu!

Mantém-se o mesmo abelhudo
que quer dar conta de tudo.

+ Ferreira Gullar

7 de jul. de 2011

Vicki Myron imortalizou o gato Dewey

Devorei esse livro!

Na orelha vem: "A cidade de Iowa, chamada Spencer, vive o legado da crise agrícola de 1980 que abalou os EUA. "Quando os tempos estão difíceis, ou se juntam as forças ou se desmorona. Isso vale para familias, cidades e pessoas. No final dos anos 80 Spencer mais uma vez juntou suas forças." Foi em 1987 que Dewey apareceu na Biblioteca. E o decorrer disso é que as pessoas frequentavam e saiam mais felizes de lá. Liam mais. As pessoas conversavam a respeito pela rua: " Eu estava lá na Biblioteca". "Dewey estava lá?". "Claro!". "Ele sentou em seu colo?". "Na verdade fui pegar um livro e o deixei cair no meu dedão". "E o que Dwewy fez?. "Ele riu".

A capa do livro
Há tempos fiz uma postagem aqui no Blog sobre o livro mais que gostosinho “Dewey, um gato entre livros”, e que estava naquela leva das 100 postagens excluídas (sem querer por mim) do blog. O livro continua sendo recomendado. Sua dona, a escritora Vicki Myron, vem confirmar que gatos e livros têm uma íntima relação. Parafraseando: “Por trás de um grande escritor, artista e poeta, sempre há um grande gato!”

Vicki Myron nasceu em Spencer e cresceu em uma fazenda em Iowa, numa cidade que não existe mais. Vicki se mudou para Minnesota, onde trabalhou, casou, teve uma filha e foi para a faculdade. Vicki fez bacharel e mestrado. Em 1982, ela foi para Spencer para trabalhar na biblioteca pública. Em 1987, Vicki foi nomeada Diretora da Biblioteca Pública de Spencer e lá ficou por 25 anos e meio. Vicki se aposentou em 2007 e escreveu este livro [a pedido de muita gente] sobre o gato laranja que ficou famoso. Vicki reside ainda em Spencer.

O livro é uma história verdadeira que começa com um gatinho abandonado e que passou a viver uma vida extraordinária dentro de uma biblioteca, inspirando uma mãe solteira, transformando uma biblioteca esquecida e os habitantes de sua cidade que vivia numa quebradeira econômica e que capturou o coração dos amantes de animais ao redor do mundo.

Vicki Myron era uma mãe, separada, que depois de sobreviver à perda da fazenda da família e a um marido abusivo, voltou para a escola e tornou-se uma bibliotecária. Como diretora da Biblioteca Pública de Spencer seu maior desafio foi elevar o espírito dos moradores conclamando-os à leitura, já que a cidade estava profundamente atolada na crise agrícola da década de 1980. E a solução para salvar a cidade veio do mais improvável dos lugares, foi quando Vicki encontrou um pequeno e sujo gatinho, quase morto, congelado devido ao tenebroso inverno e que fora abandonado na caixa suspensa da Biblioteca, aquelas em que se devolve os livros emprestados. Reconhecendo a extraordinária força e singularidade deste gatinho, Vicki recebeu aprovação do conselho da biblioteca para adotá-lo como o gato da biblioteca Spencer. Nela residiu por 19 anos, até morrer. 

Sua fama cresceu, as pessoas viajavam centenas de quilômetros para conhecer Dewey, que acabou sendo o assunto de um documentário no Japão! Por tudo isso, Dewey permaneceu um companheiro leal, um farol de esperança não apenas para Vicki Myron, mas para toda a cidade de Spencer, uma vez que retirou lentamente as pessoas da tristeza na pior crise financeira dos EUA. 

Sabe-se que os gatos é que escolhem seus donos e em quem confiar. Dewey deitava-se no colo das pessoas mais precisadas e distribuía carinho. Ele escolhia as pessoas, e elas viam nele um conforto, uma alegria.

Quando Dewey morreu em 2006, aos 19 anos de idade, seu obituário apareceu em mais de 250 jornais, incluindo o New York Times, e foi anunciado no noticiário nacional de televisão à noite. Ele ganhou uma estátua de bronze.


Dewey imortalizado em bronze 

Na verdade, o Gato Dewey criou a escritora de sua história. Inspirou Vicki nos 19 anos em que viveram entre os livros.

Conheça a Biblioteca de Spencer: http://www.spencerlibrary.com/dewey.shtml

Veja vídeos e muito mais no site:



Um gato sobre livros: Dewey na Biblioteca de Spencer, EUA

Vicki e Dewey
Vicki e Dewey

2 de jul. de 2011

Escritores e seus Gatos & Gatos e seus Escritores

Encontrei um sitio interessante que traz uma lista boa de escritores e seus gatos. Você terá surpresa ao conferir a lista que não é pequena, mas bem incompleta com certeza! Legal é que o site pede colaboração para seu arquivo. Logo me empolguei. Penso em enviar o Ferreira Gullar e o Guimarães Rosa, Nise da Silveira e mais o português José Jorge Letria. Há muitos outros..


Samuel e Nikita no dia em que se conheceram
Mas o 1° que enviei foi o escritor Samuel Sergio Salinas, amigo pessoal que adotou uma gatinha por mim resgatada da rua e a batizou Nikita. Ela é sua companheira inseparável de biblioteca. Vive como ele, entre livros. Ele me contou que Nikita é tão companheira que acompanha-o pela rua, caminhando ao seu lado pelas calçadas tranquilas do bairro onde mora. Lembrei-me da história de "Dewey, um gato entre livros" de Vicki Myron. O laço de amizade entre Nikita e Salinas precisa ser registrado. Então aqui venho com uma homenagem ao meu amigo escritor mostrar a mensagem que enviei ao site:


Para incluir no site "Escritores e Gatos"
To include the site "Writers and Cats"

Prezados Senhores, envio uma contribuição para o site e espero seja publicado:
Dear Sirs, I send a contribution to the site and hope to be published:

http://writersandkitties.tumblr.com/

Escritores do Brasil: Samuel Sergio Salinas e a gatinha frajola Nikita
Writers from Brazil: Samuel Sergio Salinas and Sylvester the cat Nikita




A foto foi tirada exatamente há 2 anos, dia 2 de julho de 2009.
The photo was taken exactly two years ago, July 2, 2009.


Samuel Sergio Salinas. Escritor brasileiro, nasceu em 1932, advogado formado pela USP - Universidade de São Paulo, sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, ex-docente da Unicamp - Universidade de Campinas e Procurador da Justiça aposentado, associado-fundador do Ministério Público Democrático. É autor dos livros "O bando dos quatros:a industrialização no sudeste da Asia"; "Antes da Tormenta: origens da 2ª guerra mundial 1918-1939"; "México: dos astecas à independência"; "A America e o Capital"; "Do feudalismo ao capitalismo: transições"; "Islã, esse desconhecido".


Samuel Sergio Salinas. Brazilian writer, was born in 1932, educated lawyer USP -University of São Paulo, a sociologist graduated from the Faculty of Philosophy,Sciences and Letters of Rio Claro, former professor at UNICAMP - University ofCampinas Justice and Attorney retired founder of the associated Democraticprosecutor. Is the author of "The Gang of Four: industrialization in Southeast Asia," "Before the Storm: the origins of World War 2 1918-1939", "Mexico: the Aztecs to independence," "America and The Capital"; "From feudalism to capitalism, transitions, "" Islam, this unknown ".
Obrigada
Thanks


Agora é só conferir se aceitaram a minha importante indicação!


http://writersandkitties.tumblr.com/

27 de jun. de 2011

Alexandre O´Neill, o gato e o adeus


Cat on a roof 1978 Fernando Botero
Alexandre O´Neill, o gato e o adeus
* Conto de José Jorge Letria, em "Amados Gatos"


O GATO, vendo o poeta de ombro apoiado na ombreira a observar a feira cabisbaixa em seu redor, acercou-se dele e perguntou-lhe, no murmúrio ronronado que costuma servir de preâmbulo às grandes questões metafísicas:

- Servos ou donos?

O poeta, por achar a pergunta demasiado enigmática, contornou a resposta afagando-lhe o dorso e dizendo:

- Deves estar cheio de fome, o teu mal é fome, e eu não tenho forma de remediar esse problema, porque não sou rato, nem peixe, nem pássaro estonteado pela luz. Eu sou apenas um pobre poeta de ombro na ombreira.

Mas o gato, apurando o gutural e afectuoso ronrom, insistiu:

- Sei bem ao que venho, sim, porque eu nunca me esqueço dos versos que me são dedicados. Eu bem me lembro das tuas palavras, Alexandre: Que fazes por aqui, ó gato? / Que ambiguidade vens explorar? Quem sou eu, meu caro Alexandre, para te deixar sem resposta, logo a ti, meu poeta de Lisboa, de coração amarfanhado pela tenaz da mais irónica ternura?

Foi então que Alexandre se lembrou do gato do poema, dessa coisa ágil e esquiva, soberana e livre, em forma de assim, fugaz como um golpe de vento, rebelde como uma metáfora imprevista.

- Tantas vezes te deixei utilizar esta mão — disse — que cheguei a acreditar que, quando escrevesse um poema sobre ti, serias tu mesmo a escrevê-lo, de forma mediúnica, usando o movimento pausado da minha mão sobre o papel.

O gato, esse mesmo, o do poema, roçou a cabeça pelas pernas do poeta, impregnando-se com o seu cheiro, com o perfume das suas palavras exactas e limpas, e depois aventurou-se num breve monologo de bicho filosofante. Assim:

- É como te digo, Alexandre, tu e eu temos em comum este vício felino de sermos livres, nas palavras, nos gestos, nos silêncios. Um dia, tu partes e eu fico para aqui abandonado a miar à lua, como se perguntasse por ti. Um dia, eu parto e tu ficas sem gato a quem possas dedicar o poema, órfão de gato, nostálgico da sua arqueada liberdade arrastada sobre os telhados como uma confissão de nocturnos cios.

O poeta, emocionado com a enleante sabedoria do gato, esse mesmo, o do poema, só conseguiu perguntar-lhe:

- Afinal, vamos lá a saber, o poeta és tu ou sou eu?

Ao que o gato respondeu:

- Somos os dois, Alexandre, somos os dois, cada um à sua maneira. Tu no que escreves e eu no que não escrevo mas vivo. Temos este destino comum a ligar-nos como uma ponte, como uma centelha de luz, como um arame a juntar as duas extremidades da lua nova.

Alexandre, o poeta, só encontrou uma forma de lhe responder:

- Há miar e miar, há ir e voltar.

Ainda a frase não se deixara concluir e já o gato se empoleirara sobre o parapeito de uma janela, muito perto da ombreira da porta, posto de observação do poeta para ver a feira a ficar cada vez mais cabisbaixa, por falta de esperança para erguer de vez a cabeça em direcção ao sol.

Do gato nunca mais o poeta teve noticias, nem em prosa nem em verso, e quando, num sisudo dia 21 de Abril, o coração do poeta, como um gato triste e cansado, se recusou a levar por diante a faina de estar vivo, houve quem avistasse um velho gatarrão sobre o parapeito da janela do hospital, murmurando com a sapiência do seu estilo ronronado:

- Há miar e miar, e tu, Alexandre, hás-de voltar, porque um gato sem o seu poeta de estimação fica prometido à morte como um pardal à inclemência do relâmpago.

E quando alguém, aproximando-se dele, quis saber "o que fazes por aqui, ó gato?", o bichano, arqueando-se para o derradeiro salto na direcção da lua, respondeu apenas:

- Perguntem ao Alexandre, ao O'Neill, que só ele sabe. Os poetas é que sabem. É dos livros.

***

* José Jorge Letria
Jornalista, e escritor. Nasceu em Caiscais, Portugal em 1951. È antiga e profunda a paixão do autor pelos gatos e pelo seu singular universo de liberdade e soberania. Letria vive com seus nove gatos. Escreveu Amados Gatos que é um conjunto de textos que tem como ponto de partida os gatos de figuras famosas da literatura, das artes e da política, de Richelieu a Lenine, de Hemingway a Anne Frank, pasando por Churchill, Marilym Monroe, Paulo Klee ou Zola, entre outros. Construidos com base em fatos e figuras reais, estes contos reinventam a vida de gatos famosos e de seus ilustres donos, assumindo-se como homenagem a estes felinos que o homem nunca conseguiu domesticar.


Postagens para Alexandre O´Neill 

9 de jun. de 2011

Alexandre O´Neill


Quem é Alexandre O'Neill

Ele também gostava de gatos. Há alguns poemas e crônicas dele, publicadas por aqui.

É da sua autoria o lema publicitário: “Há mar e mar, há ir e voltar” que tratava dos cuidados que as pessoas têm que ter com a praia. É que precisava sobreviver, e só com sua poesia não era possível, portanto trabalhava em marketing.

Foi várias vezes preso pela polícia política, a PIDE (Uma Scotland Yard portuguesa).

Acho que era bem humorado e satírico, pela sua biografia e bibliografia, posso concluir..

Surrealista!


Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill. Nasceu em Lisboa, 19 de Dezembro de 1924 e morreu em Lisboa, 21 de Agosto de 1986 com 62 anos.

Descendente de irlandeses, autodidata, O’Neill foi um dos fundadores do Movimento Surrealista de Lisboa. É nesta corrente que publica a sua primeira obra, o volume de colagens “A Ampola Miraculosa”, (1949)  constituída por 15 imagens sem qualquer ligação e respectivas legendas, sem que entre imagem e legenda se estabelecesse um nexo lógico, o que torna altamente irônico o subtítulo da obra “Romance”.

As influências surrealistas permanecem visíveis nas obras dele, que além dos livros de poesia incluem prosa, discos de poesia, traduções e antologias. Não conseguindo viver apenas da sua arte, o autor alargou a sua ação à publicidade.

A poesia de Alexandre O'Neill concilia uma atitude de vanguarda (surrealismo e experiências próximas do concretismo) — que se manifesta no caráter lúdico do seu jogo com as palavras, no seu bestiário, que evidencia o lado surreal do real.

Os seus textos caracterizam-se por uma intensa sátira a Portugal e aos portugueses, destruindo a imagem de um proletariado heróico criada pelo neo-realismo, a que contrapõe a vida mesquinha, a dor do quotidiano, vista, no entanto, sem dramatismos, ironicamente, numa alternância entre a constatação do absurdo da vida e o humor como única forma de se lhe opor.

Temas como a solidão, o amor, o sonho, a passagem do tempo ou a morte, conduzem ao medo: “O Poema Pouco Original do Medo”, com a sua figuração simbólica do rato ou à revolta de que o homem só poderá libertar-se através do humor, muitas vezes manifestado numa linguagem que parodia discursos estereotipados, como os discursos oficiais ou publicitários, ou que reflete a própria organização social, pela integração nela operada do calão, da gíria, de lugares-comuns pequeno-burgueses, de onomatopéias ou de neologismos inventados pelo autor. 

Alexandre O'Neill escreveu:

Tempo de Fantasmas (1951),
No Reino da Dinamarca (1958),
Abandono Vigiado (1960),
Poemas com Endereço (1962),
Feira Cabisbaixa (1965),
De Ombro na Ombreira (1969),
Entre a Cortina e a Vidraça (1972),
A Saca de Orelhas (1979),
As Horas Já de Números Vestidas (1981),
Dezenove Poemas (1983) e
O Princípio da Utopia (1986).
Poesias Completas, 1951-1983 (1984).
Tomai Lá do O'Neill (1986)
As Andorinhas não Têm Restaurante (1970)
Uma Coisa em Forma de Assim (1980, volume de crônicas)
Gravou o disco: Alexandre O'Neill Diz Poemas de Sua Autoria.
Em 1966, foi traduzido e publicado na Itália, pela editora Einaudi, um volume da sua poesia, Portogallo Mio Rimorso.
Recebeu, em 1982, o Prémio da Associação de Críticos Literários.

6 de jun. de 2011

Alexande O´Neill: Gato

Gatos: William Henry Trood
Que fazes aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,

ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que Deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo

ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexande O´Neill

1 de nov. de 2010

Gatinho de Ferreira Gullart, presente em seu novo livro


Aqui vão dois dos poemas de "Em Alguma Parte Alguma", livro que chegou quebrando um silêncio de 11 anos do poeta maranhense Ferreira Gullart, que são para seu gato. Gullar fez 80 anos dia 10 de setembro de 2010 e seu gato, chamado "Gatinho" está sempre presente. Aliás ele escreveu um livro "Um gato chamado Gatinho" que é de uma cumplicidade enorme com seu gato, delicadeza de poeta.


Anoitecer em outubro


A noite cai, chove manso lá fora
meu gato dorme
enrodilhado
na cadeira
Num dia qualquer
não existirá mais
nenhum de nós dois
para ouvir
nesta sala
a chuva que eventualmente caia
sobre as calçadas da rua Duvivier

Flagrante
o meu gato
na cadeira
se coça
corto papéis coloridos na sala
e os colo num caderno
a manhã clara canta na janela
estou eterno

(José Olympio, 144 páginas)

18 de set. de 2010

Carta de Paul Klee aos seus gatos Nuggi, Fritzy e Bimbo

Cat and Bird, Paul Klee (1928)

Carta de Paul Klee aos seus gatos Nuggi, Fritzy e Bimbo
* Conto de José Jorge Letria, em "Amados Gatos"




Queridos Nuggi, Fritzy e Bimbo:

Chegado ao fim da minha vida, dirijo-vos esta carta para vos dar conta da importancia que tiveram no meu atribulado percurso como pintor.

Creio que não teria chegado onde cheguei como artista do meu tempo sem o vosso amor e a inspiração que nunca me regatearam.

Fiz questão de vos manter presentes em tudo quanto fiz, desde as cartas aos poemas, passando, naturalmente, pelos quadros em que tentei modestamente representar-vos.

Vocês acompanharam-me nas horas de sofrimento e incerteza, de exílio e de privação, mas também naquelas que me deram a ilusão da felicidade. Primeiro o meu querido Nuggi, cinzento e meigo, ainda nos anos da juventude; depois, Fritzy, tigrado, brincalhão e matreiro a que tambem chamei Fripouille, nos tempos mais intensos da criação pictórica e tambem do reconhecimento artístico pelo público e pela crítica; por fim, Bimbo, branco e discreto, já nos anos da doença e da decadência física, sempre dedicado, sempre presente, sempre terno e atento.

Devo confessar que sempre vislumbrei em vós um toque do sagrado, porque não hesito em considerar-vos seres divinos, que eu não fui capaz de retratar com o talento nas telas e nos desenhos em que vos tentei eternizar. Sim, é verdade que vos escrevi cartas, sobretudo a Bimbo, já no fim da vida, e que não tinha sossego nos meus telefonemas sempre que me diziam que algum de vocês estava doente ou andava fugido. Isso nunca foi uma fraqueza minha e sim uma das principais manifestações do amor que consegui compartilhar com outros seres.

Ainda assim, alguns dos quadros de que mais gosto são precisamente aqueles em que vos reservei lugar, com títulos como O Gato e o Pássaro ou A Montanha do Gato Sagrado. Os gatos ajudaram tambem a fortalecer amizades com artistas e poetas que comungavam comigo esse amor e essa admiração irrenunciáveis. Foi o que aconteceu com Rainer Maria Rilke. Até isso eu vos fiquei a dever, tributo reservado a um pintor que tentou estar sempre à altura da vossa ternura e infinita capacidade de dádiva.

Agora que estou de partida, levo comigo a recordação do que vocês foram para mim e a convicção de que não teria sido o que fui, nem teria chegado onde cheguei, sem o vosso amparo e dedicação. No meu íntimo, sei que voltaremos a encontrar-nos, porque não pode acabar no perecível mundo material e terreno um amor como o nosso.

Eternamente vosso, 
PAUL KLEE

***

Extraído de "Amados Gatos" de José Jorge Letria - Oficina do Livro


* José Jorge Letria
Jornalista, e escritor. Nasceu em Caiscais, Portugal em 1951. È antiga e profunda a paixão do autor pelos gatos e pelo seu singular universo de liberdade e soberania. Letria vive com seus nove gatos. Escreveu Amados Gatos que é um conjunto de textos que tem como ponto de partida os gatos de figuras famosas da literatura, das artes e da política, de Richelieu a Lenine, de Hemingway a Anne Frank, pasando por Churchill, Marilym Monroe, Paulo Klee ou Zola, entre outros. Construidos com base em fatos e figuras reais, estes contos reinventam a vida de gatos famosos e de seus ilustres donos, assumindo-se como homenagem a estes felinos que o homem nunca conseguiu domesticar.

13 de set. de 2010

O Gato de Cheshire de Tim Burton é o mais bonito que já vi








O Gato de Cheshire das fotos é a versão de Tim Burton
 em Alice no Pais da Maravilhas. Lindo!


Natural da província inglesa de Cheshire, Lewis Carroll incluiu no seu livro Alice no País das Maravilhas um felino a quem deu precisamente o nome de Gato de Cheshire. Capaz de aparecer e desaparecer, o felino dialoga com Alice:


- Bichano de Cheshire, poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui? 
- Depende bastante da onde voce quer ir", respondeu o Gato. 
- Não me importa muito para onde, disse Alice. 
- Então não importa que caminho tome, disse o Gato. - Contanto que chegue a algum lugar, Alice acrescentou como explicação.
- Oh, isso você certamente vai conseguir, afirmou o Gato, desde que ande o bastante.


Mas a imagem que marca a curiosa personagem de Lewis Carroll é mesmo o sorriso de orelha a orelha, que permanece mesmo quando ele desaparece. No filme de Tim Burtom, ele consegue que a Lua minguante se transforme no enorme sorriso de Cheshire. Um cena bem bonita!


A origem do Gato de Cheshire não é consensual. Teorias defendem que o escritor se inspirou numa gravação presente numa igreja de Croft-on-Trees, no Nordeste de Inglaterra, onde o pai havia sido vigário. Outras dizem que se trata da reprodução de uma gárgula encontrada na Igreja de St. Nicolas em Cranleigh, localidade que Carroll visitava frequentemente quando vivia em Guilford. E há ainda quem atribua a origem da personagem a outra gravação numa igreja de Cheshire, terra-natal do autor.


E a lenda do Gato não fica por aqui. Diz-se também que a frase "sorrindo como um Gato de Cheshire" popularizada em Alice, tem origem no fato da província ser conhecida pelo seu queijo em formato de gato sorridente, que era cortado a partir da cauda, sendo a última parte comida a da cabeça.


Uma explicação mais simples, e também relacionada com Cheshire, aponta para o fato de que os produtos láteos da região, fazem os gatos felizes e, logo, eles expressarem essa felicidade com um enorme sorriso.


O felino ficou famoso ao ponto de ter tido, até final dos anos 70, um monumento junto ao porto de Chester. Consta que os gatos ali se sentavam nas docas à espera que os ratos abandonassem os navios, que transportavam os produtos láteos para Londres, o que levanta mais uma hipótese para o nascimento do popular felino.

12 de set. de 2010

Alice no país das maravilhas de Tim Burton

Acabei de assistir Alice no País da Maravilhas de Tim Burton, em DVD. Excelente para um domingo modorrento. O cineasta americano trabalha usualmente com temáticas sombrias, chamando para o elenco na maior parte das vezes, o ator Johnny Depp - o chapeleiro do filme. No cinema, os efeitos 3D devem proporcionar mais emoções. Mas me contentei bastante com a fotografia e efeitos. Espetáculo à parte é o Gato de Cheshire. Tim o apresenta dengoso, charmoso, com voz suave e morna. Lindo! 
"- Não sabia que os gatos de Cheshire sempre sorriam: na verdade não sabia que gatos podiam sorrir. 
- Todos podem, disse a Duquesa, e a maioria o faz. 
- Não conheço nenhum que sorria, declarou Alice. 
- Você não sabe grande coisa, observou a Duquesa, e isso é um fato.
Ela teve um ligeiro sobressalto ao ver o Gato de Cheshire sentado no galho de uma árvore a alguns metros de distância. Ao ver Alice, o gato apenas sorriu. Parecia amigável, ela pensou. Ainda assim, tinha garras muito longas e um número enorme de dentes, de modo que achou que devia tratá-lo com respeito.
 - Bichano de Cheshire, poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui? 
- Depende bastante da onde voce quer ir, respondeu o Gato. 
- Não me importa muito para onde. disse Alice.
- Então não importa que caminho tome, disse o Gato. 
- Contanto que chegue a algum lugar, Alice acrescentou como explicação. 
- Oh, isso você certamente vai conseguir, afirmou o Gato, desde que ande o bastante."


(Lewis Carrol)


26 de ago. de 2010

A velha Gata Malhada, T.S.Eliot

Minha gata malhada Cindi: foto Renato Silvestre
____________________
A velha gata malhada
T.S.Eliot
____________________
Suponho uma gata malhada, chama-se Ágata Sardenta
Listras de tigre e pintas de leopardo a sua pele ostenta
Deita-se o dia inteiro no capacho ou nos degraus da escada;
E por ali todo tempo jaz deitada – mas isto é o que faz uma Gata Malhada!

Mas quando, à noitinha, cessa toda a correria
É que o duro trabalho da gata principia.
E quando toda família cai no sono e se deita,
Ela desce no porão, levanta as saias e espreita.
Interessam-lhe a fundo as maneiras do rato
Sua péssima conduta e sua falta de tato.
Assim, quando o enquadra sob o capacho escondido,
Ensina-lhe sua música, seu crochê e seu cerzido.


Suponho que uma gata Malhada, chama-se Ágata Sardenta;
Outra igual a custo acharia, adora o calor e sob o sol se esquenta.
Deita-se o dia inteiro ao pé do fogo, do forno ou sobre uma almofada;
E ali por todo o tempo jaz deitada – mais isto é o que faz uma Gata Malhada!


Mas quando à noitinha, toda a azáfama cessa
É que a árdua tarefa da gata recomeça.
Ao perceber que aquele rato não se aquieta,
Conclui que isto se deve a uma equívoca dieta.
E por crer que na vida nada vem de graça,
Corre logo para o forno e a frigideira. E assa
Um bolo de rato, enquanto bem devagarinho
Frita uma bele omelete de queijo e de toicinho.


Suponho que uma gata Malhada, chama-se Ágata Sardenta;
Apraz-lhe dar nós nas cordas da cortina ao pé da qual se senta.
Deita-se à beira da janela, ou em qualquer coisa acolchoada:
E ali por todo tempo jaz deitada - mas isto é o que faz uma Gata Malhada!

Mas quando, à noitinha, chega ao fim o bulício
É que a gata, outra vez, retorna ao seu ofício.
Ela crê que às baratas cabe alguma ocupação:
Nada de ócio ou de luxúria no ermo do porão.
E assim fez dessa tola malta de arruaceiros
Uma bem disciplinada tropa de escoteiros,
Com um alvo na vida e a missão de colher louros,
Tendo mesmo formado uma Banda de Besouros.

Cabe assim darmos agora tres vivas à Malhada,
Pois sem ela, ao que parece, não há casa arrumada.

***
Extraído do "Livro do velho Gambá sobre gatos travessos".
T.S.Eliot, Obra Completa, vol 1, Poesia.
Tradução de Ivan Junqueira
The Old Gumbie Cat é o 2° poema, ao todo são 15, e também a 2ª cena do Musical Cats.

Leia o primeiro aqui.



Detalhes:
Na tradução, Ivan Junqueira adaptou alguns nomes de gato para dar a rima proposta por Eliot. Olhando o original, vemos algumas interpretações do tradutor.

Estes poemas do "Livro do Velho Gambá sobre gatos travessos", foram adaptados para o musical Cats.

E o mais importante: ganhei as obras de T.S.Eliot, do meu queridíssimo amigo Renato Silvestre. Um fotógrafo de primeira, além de gateiro.
Confira mais sobre o poeta e escritor T.S.Eliot e veja fotos dele, aqui.


Vídeo desta cena no Musical Cats