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3 de abr. de 2012

O valioso tempo dos maduros



O valioso tempo dos maduros
(Mário Coelho Pinto de Andrad )
(1928/1990), poeta, ensaísta e escritor angolano

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. 
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.


Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturas. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral. "As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos". Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…


Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade… Só há que caminhar perto de coisas e pessoas de verdade. O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta o essencial!

***
Obrigada Liège, amiga de tantos anos, pela mensagem. Retribuo com mais cerejas, muitas cerejas!... http://cerejafrutavermelha.blogspot.com.br/

17 de jun. de 2011

Teia e tear: a arte de tecer



É quase que inacreditável, mas este tecido dourado, delicado, lindo, uma obra de arte, bordado fio a fio num tear e com motivos utilizados pela antiga nobreza de Madagascar, foi tecido com fios de seda de aranhas!

ATÉ ARANHAS SÃO EXPLORADAS PELO HOMEM
 
Interessei-me imediatamente por esta história porque me incomoda muito a relação de exploração do homem com tudo o que possa lhe trazer lucro, inclusive o próprio homem. Quando li a notícia em 2009, guardei o recorte para futura pesquisa. O delicado tecido dourado estimulou admiração pela aranha que produz o filamento de seda. Achei o cúmulo da exploração extraírem os fios de seu abdome o que obviamente, além do sofrimento imposto às aranhas, devem te-las mortas aos milhares durante o manuseio, desde a sua captura até a extração da seda.

O nome da aranha que produz a teia dourada é Néphila. São 36 espécies de Néphila que vivem pelos trópicos da América, Ásia e África. Aqui no Brasil, muita gente fotografou néphilas em suas teias douradas e pude encontrá-las facilmente nas redes sociais, como o flickr.  












 
Essas aranhas douradas produzem uma matéria-prima que são filamentos de seda muito resistentes. Apenas as fêmeas de Nephila produzem o célebre filamento, tanto por sua bela cor de açafrão, quanto por sua força tensorial que é até seis vezes mais forte que o aço de peso equivalente.

Mas a pobre rica personagem desta história vive em Madagascar e se chama Nephila Madagascariensis.


Néphila Madascariensis
Elas são grandonas e não são venenosas. Chegam a ter 12 cm de patas! Suas teias são tecidas no formato circular, por isso também é classificada como “orbe” provavelmente pelo formato orbital com que tecem suas teias. As teias podem ser vistas entre os fios de telefone e eletricidade e às vezes são grandes o suficiente para atravessar uma estrada de pista única.
Esta foto é no Brasil
A IDEIA DE EXTRAIR A SEDA EM MADAGASCAR NÃO É NOVA

Um cara chamado Simon Peers, inglês, historiador da arte e especialista no ramo têxtil e que vive em Madagascar há mais de 20 anos juntou-se com outro cara, Nicholas Godley, estilista de moda americano que também está vivendo na ilha, e iniciaram uma parceria para fazer o que ninguém tinha tentado havia mais de cem anos: usar aranhas para produzir seda, do mesmo modo como os casulos do bicho-da-seda vêm sendo usados há milhares de anos.

Peers trabalha há anos para reativar as tradições de tecelagem pelas quais Madagascar foi famosa no passado. Esta fama de Madagascar em tecidos, não é recente e no final da década de 1880 e 1890 pescadores já usavam a seda das aranhas para tecer redes e linhas de pesca rudimentares.

Os dois retomaram essa velha idéia e montaram uma operação de extração da seda de aranhas, contratando pessoas locais para vasculhar o campo que com longos bastões de bambu, recolheram aranhas fêmeas vivas. Montaram um sistema pelo qual trabalhadoras mulheres manejavam cada aranha individualmente, suavemente puxando os fios dependurados de suas fiandeiras. Se provocadas, as aranhas mordem, mas suas mordidas não são perigosas.

Em seguida, cada aranha era colocada num arreio. Em fila, 24 aranhas ficavam paradas ali, enquanto uma bobina puxava o resto de sua teia, em fios contínuos que, em alguns casos, chegavam a ter 365 metros de comprimento.

Esses 24 fios foram então torcidos manualmente para formar um só e unidos em feixes de 96 fios cada, que funcionavam como a base do tecido. Nem um único fio jamais se partiu no tear de tão fortes que são. Esse processo durou 4 anos e 1 milhão de aranhas.

E O QUE FOI FEITO COM AS MAIS DE 1 MILHÃO DE ARANHAS?

Dizem que “algumas morreram durante a produção”, o que não é simples de acreditar, pois imaginem a fragilidade delas sendo manuseadas e violadas na extração de sua teia, dispostas num arreio... Disseram também que montaram um sistema pelo qual as aranhas usadas eram soltas diariamente e que planilhas detalhadas registravam o número de aranhas utilizadas, sua produção e o índice de mortalidade. Não encontrei esta planilha detalhada...

A certa altura da reportagem eles afirmam “viramos de certo modo defensores dessas aranhas", e se descreveram como sofredores convictos de aracnofobia. Não é para menos!

Estas aranhas foram coletadas durante a estação chuvosa, o único momento em que eles produzem a seda, em Antananarivo, capital de Madagascar e redondezas da ilha que fica na África e é riquíssima em espécies exóticas. Precisou também de uma hábil equipe de trabalhadores malgaxes (como são denominados os habitantes de Madagascar) que recolheram as aranhas na natureza e outro tanto que lidou com a extração e com os teares.

"ODEIO SOAR PRETENSIOSO, MAS NOSSA INTENÇÃO FOI PRODUZIR UMA OBRA DE ARTE"

Nada pretensiosos, imagina! A obra de arte, o tecido, custou mais de meio milhão de dólares para ser produzido e está em exposição no Museu Americano de História Natural, em Nova York. O tecido é o primeiro exemplar de que sem tem registro de um têxtil tecido à mão e com brocado feito inteiramente com a seda destas aranhas.

Essa intricada tecelagem com estampas características de pássaros e flores estilizadas se baseia em uma tradição de tecelagem conhecido como Lamba Akotifahana das terras altas de Madagascar, uma arte reservada para as classes abastadas e para a realeza do povo Merina e que foi utilizada por um longo período, no entanto, não existe uma tradição de tecelagem de seda de aranha em Madagascar. 

Um dos maiores desafios é a natureza antropofágica de aranhas, o que torna muito difícil criá-las em cativeiro.  Por isso, os cientistas estão tentando produzir este material intrigante artificialmente para possíveis usos no campo de batalha, ou em cirurgia, para a exploração espacial, entre outros. Os pesquisadores estão investigando maneiras de replicar a seda, para evitar a colheita. No entanto, a seda da aranha é difícil de imitar em um laboratório, porque é um tipo de proteína que é produzida na parte de trás do abdome da aranha, por uma glândula que secreta a proteína líquida, mas assim que entra em contato com o ar torna-se este fino fio extremamente forte.
OS NÚMEROS DESTA OBRA DE ARTE
·         1 milhão de aranhas Néphila Madagascariensis "doaram gratuita e voluntariamente" seu fios de seda;
·         Não se sabe quantas aranhas morreram;
·         80 pessoas trabalharam nesse processo;
·         ½  meio milhão de dólares foram investidos no projeto;
·         As aranhas fêmeas são 5 vezes maiores que os machos;
·         As aranhas vivem 1 ano e morrem após o acasalamento no fim do verão;
·         Produzem a seda na época de chuvas;
·         Cada aranha produz 80 metros de fios dourados;
·         As fêmeas são antropofágicas e não podem ser criadas em cativeiro;
·         Somente as fêmeas é que produzem a seda;
·         O tecido que foi para o Museu tem 11 metros x 4 metros demorou 4 anos para ser tecido;
·         o tecido de seda da aranha é delicado ao toque e é muito difícil de ser produzido em grande quantidade;
·         Há 100 anos a técnica de extrair a seda já existia em Madagascar, mas foi abandonada devido à dificuldade de extração;
·         Os fios extraídos são torcidos juntos de 4 em 4 e chegam a ter 365 metros;
·         Os desenhos do tecido são da época da realeza de Madagascar;
·         Os fios podem esticar até 40% do seu comprimento normal;
·         Os fios são 6 vezes mais resistentes que o aço de mesmo peso;
·         O  fio está sendo estudado para decifrar a estrutura molecular que determina sua grande resistência.


Com isso concluo minha pesquisa, que ainda poderia ter desdobramentos, a depender dos diversos aspectos em que o tema pode ser abordado. Pesquisa essa que me deixou extasiada pela beleza da obra de arte que resultou, e estupefata pela ousadia humana em explorar tudo e cada milímetro de possibilidades para realizar algo grandioso. Fica a polêmica: justifica-se sacrificar vidas para atingir a perfeição? 

5 de mai. de 2011

Que nomes como Osama e Obama não sejam usados em cachorros


Me mantenho estarrecida com as coisas que ouço na imprensa. Existe um consentimento para a barbárie que é inacreditável e inadimissivel. Os EUA invadem um país, sem seu consentimento, invadem a casa de Osama, cometem o assassinato de várias pessoas, não só do alvo tão desejado, o Osama e, Obama (interessante coincidência de nomes) não vai mostrar as fotos da chacina, até porque nem deve dar prá reconhecer o monte de carne que ficou a cara de Osama.

Enquanto isso, a ONU fala, fala, fala, e fica falando sozinha, não altera em nada com suas indagações e fica a incredulidade com que o mundo assiste ao imperialismo mostrar como é macho! Lembra muito o cachorro que não é castrado e fica demarcando território por onde passa, mijando em todos os muros da rua...

Hoje, Obama vai colocar flores onde antes eram as torres gêmeas, tá certo foram 3 mil mortos mais do que vingados, mas tá certo? É assim mesmo? Uma morte vai vingando a outra para manter a dominação? Parece piada aquela americana que mantinha um placar na porta de sua casa contando os dias que faltavam para Osama ser morto. Consolida-se o direito dos primórdios, das hordas, dos malfazejos de matar impunemente. O ódio é inseminado no povo americano, em larga escala. Uma parafernália de barbáries são perpetuadas com estes atos insanos e temos que assistir a tudo isso sem poder alterar uma vírgula nesse tratado?

Olha, olha! A mídia já está divulgando nos mínimos detalhes o que é o “bioterrorismo”. O Mundo precisa estancar esse processo de destruição para o qual caminhamos. E que nomes como Osama e Obama não sejam usados para nomear cachorros, aliás, já comuns na raça pit bull! Esses também, que triste fim!

15 de fev. de 2011

A música “Bola Dividida” admite a violência contra a mulher


Todos os dias vemos no noticiário as mortes anunciadas. São mulheres que sofrem violência de seus companheiros e, apesar de algumas terem coragem de denunciar, ficam sem qualquer proteção ou assistência dos órgãos responsáveis. Não aceitam uma "insubmissão".
Acabam sendo mortas sem direito à defesa. E a causa é quase sempre a mesma: crime passional.


Isso vem de tão longe! A sociedade assimila que certas coisas são “normais”. Acatam o comportamento imposto pela dominação masculina. Você já ouviu a frase: “se ela apanhou, é porque fez alguma coisa”? Ou," Dê uma surra diária na sua mulher, você não sabe porque está batendo mas ela sabe porque está apanhando” e ”Toda mulher gosta de apanhar. Só as neuróticas reagem” (Nelson Rodrigues (1912/1980) considerado um grande dramaturgo. Daria para listar uma série de frases, inclusive repetidas pelas próprias mulheres.

A minha mais recente indignação, é com o Zeca Baleiro. Ele regravou um samba de 1969 chamado “Bola Dividida” e que é composição de Luiz Ayrão no LP “Meus Momentos”. Ouço no rádio todos os dias e me inflo de indignação!

Bom, há 42 anos, a letra da composição passou batida entre as mulheres? Tá bem, mas hoje acho que não deve passar batido não! Não temos muitos mecanismos de protesto e defesa de nossos direitos de liberdade e indignação contra a violência à mulher. Mas eu aqui, estou registrando a minha:

Zeca Baleiro! Você pisou na bola, junto com Luiz Ayrão, e perpetua, através dos tempos, que a violência contra a mulher é admissível!

Tire você mesma a conclusão!

Bola Dividida
Composição Luiz Ayrão (1969)
Regravada por Zeca Baleiro (2010)

“Será que essa gente percebeu que essa morena desse amigo meu
Tá me dando bola tão descontraída
Só que eu não vou em bola dividida
Pois se eu ganho a moça eu tenho o meu castigo
Se ela faz com ele vai fazer comigo
Se eu ganho a moça eu tenho o meu castigo
Se ela faz com ele vai fazer comigo 
E vai fazer comigo exatamente igual
Ela é uma morena sensacional
Digna de um crime passional
E eu não quero ser manchete de jornal
Será que essa gente percebeu que essa morena desse amigo meu
Tá me dando bola tão descontraída
Só que eu não quero que essa gente diga 
Esse camarada se androginou 
A moça deu bola a ele e ele nem ligou
Esse camarada se androginou 
A moça deu bola a ele e ele nem ligou”.



LIBERDADE O MAIOR DIREITO DA MULHER!

8 de out. de 2010

Tiririca, um cearense arretado?

Repare como a gente é muito reprodutor do que diz a grande midia. Chega a ser  inconsciente, pois entra na nossa cabeça diariamente feito um virus pegajoso, uma "moral" que nos é imposta pelas classes dominantes.  Tudo na vida tem dois lados. E sempre é bom vermos com os olhos que observam a "luta de classes". Ela é o grande motor que nos faz pensar de que lado estamos! É terreno minado mesmo!


Francisco Everardo Oliveira Silva, nome de batismo do palhaço cearense, de 45 anos, teve mais de um milhão de votos. Tiririca é analfabeto porque as classe dominantes assim o fizeram. Não há educação para todos no Brasil... e os que votaram nele, também o são. Há mesmo esse enorme fosso que separa a grande maioria dos brasileiros dos seus direitos legítimos de morar, comer, estudar e viver dignamente. Mas esta classe alfabetizada e instruída que sempre governou, nos deixou esta herança de preconceito e ignorância, além de miseria e fome. 


Dizer que só uma "classe política" é que pode governar tem um teor duvidoso! Lula provou que um peão de fábrica, semi analfabeto, pode sim governar o Pais e faze-lo mil vezes melhor que um instruido... Porque, bem ou mal, ele o fez sob o angulo da classe de onde se originou!

Acho que a midia - instrumento da elite - usa muito o preconceito como arma de dominio:
um palhaço é um profissional e representa sua classe de palhaços, oras! Porque ele não pode ser eleito? Um cantor, um negro, também não pode, já reparou a pecha que os persegue? As mulheres sempre distantes da política por obra de quê? 

Se Tiririca ganhou tantos votos assim, não creio ser só por protestos (o protesto tem um grande significado), mas vi entrevistas em que as pessoas diziam: ele é divertido, é conhecido porque aparece direto na TV (para isso a TV abre espaço), todos riem e se divertem com ele, ele é parecido com a gente, simples, alegre, engraçado, de bem com a vida, fala errado, é do bem... Porque não te-lo lá fazendo leis? Haja preconceitos! 

Sinceramente? Espero que o Tiririca faça leis que exterminem o analfabetismo! E que nunca se esqueça da classe de onde ele se originou, da terra de onde veio, o Ceará, fazendo juz aos votos que conquistou desse povo. Com certeza vai governar para muitos! Imagine o sucesso duplicado se o palhaço for um grande deputado? 

Mas, a grande chave desta questão é que o próprio Tiririca não sabe disto! Esta consciência da luta de classes ainda não atingiu seu grau necessário. E ele poderá morrer com seu próprio veneno... 


Em tempo, um recado para ele: pior que tá, fica sim!